Números divulgados por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) mostram o acerto que foi a promoção, pela Prefeitura, do São João de Natal deste ano. O levantamento aponta que o evento movimentou aproximadamente R$ 112,6 milhões na economia da capital potiguar e gerou um retorno estimado de R$ 5,63 para cada R$ 1 investido pelo poder público. São indicadores que reforçam uma conclusão importante: quando bem planejados e executados, grandes eventos não representam gasto. Representam investimento.
O estudo, elaborado pelo Observatório Potiguar do Turismo (Opotur), mostra que quase 938,5 mil pessoas passaram pela programação realizada entre os dias 5 e 28 de junho. Os recursos circularam principalmente nos setores de alimentação, transporte e bebidas, exatamente aqueles que costumam sentir primeiro os efeitos positivos de uma grande movimentação de público. São bares, restaurantes, ambulantes, motoristas por aplicativo, taxistas, hotéis, pousadas, comerciantes e pequenos empreendedores que encontram nesses períodos uma oportunidade de ampliar faturamento, gerar renda e manter empregos.

Não por acaso, durante e após o evento, integrantes da gestão municipal defenderam que o São João deveria ser compreendido sob essa ótica. O prefeito Paulinho Freire sustentou que o principal objetivo da festa era movimentar a economia, estimular o turismo e oferecer lazer à população. Na Câmara Municipal, o líder do governo, Aldo Clemente, foi além ao afirmar que o dinheiro aplicado no evento retorna para a cidade por meio da atividade econômica. A pesquisa da Uern fornece agora a comprovação empírica dessa percepção. Mais do que um discurso político, há números que demonstram o impacto produzido.
É evidente que todo investimento público deve ser acompanhado de fiscalização, transparência e rigor na aplicação dos recursos. Questionar contratos, estruturas e despesas faz parte do funcionamento saudável da democracia. O que os dados da pesquisa demonstram, entretanto, é que parte das críticas dirigidas ao São João, especialmente aquelas que classificavam os investimentos como mero desperdício de dinheiro público, foi superada pelos resultados apresentados. O retorno econômico medido pela universidade revela que a análise não pode se limitar ao valor desembolsado pela Prefeitura. É preciso considerar também o quanto esse recurso retorna para a economia local.
Chama atenção, inclusive, que parte dessas críticas tenha partido de setores tradicionalmente identificados com a defesa da economia criativa. Há anos, esse campo político sustenta que cultura, entretenimento e grandes eventos devem ser encarados como instrumentos de desenvolvimento econômico, geração de emprego e fortalecimento da identidade cultural. Trata-se de uma visão correta. Justamente por isso, causa estranheza que, diante de um evento com capacidade de mobilizar centenas de milhares de pessoas e movimentar mais de R$ 100 milhões, o debate tenha se concentrado quase exclusivamente no custo dos cachês e da estrutura, deixando em segundo plano o impacto econômico produzido.
Natal reúne condições especialmente favoráveis para colher os frutos desse tipo de política pública. A capital construiu sua imagem nacional e internacional apoiada, sobretudo, no turismo de sol e mar. Essa vocação permanece sendo um patrimônio valioso, mas não pode limitar o potencial da cidade. Destinos turísticos modernos buscam diversificar sua oferta, criando motivos para que visitantes viajem em diferentes épocas do ano. Grandes eventos cumprem exatamente esse papel.
O São João possui uma característica ainda mais relevante. O período de realização coincide com uma época em que o turismo de praia naturalmente perde força em razão das chuvas mais frequentes e das temperaturas mais amenas. É justamente nesse intervalo que hotéis, restaurantes, bares, serviços de transporte e comércio ganham um novo impulso proporcionado pela programação cultural. O evento ajuda a reduzir a sazonalidade do turismo e distribui renda em um momento em que a economia poderia apresentar desempenho mais modesto.
Isso, porém, não significa que não haja espaço para aperfeiçoamentos. A própria pesquisa da Uern revela potencial para ampliar a presença de visitantes de outros estados. Uma medida importante seria divulgar a programação com maior antecedência. No mercado turístico, viagens costumam ser planejadas com cerca de três meses de antecedência. Apresentar atrações, calendário e estrutura apenas às vésperas da festa reduz a capacidade de atrair turistas que dependem de passagens aéreas, reservas de hospedagem e organização prévia. Uma estratégia de divulgação iniciada ainda no primeiro trimestre do ano pode ampliar significativamente o alcance nacional do evento.
O caminho, portanto, não é reduzir investimentos em grandes eventos, mas qualificá-los cada vez mais. O São João mostrou que existe demanda, capacidade de organização e retorno econômico. O mesmo raciocínio vale para o Natal em Natal, para o Carnaval e para outras iniciativas capazes de fortalecer a imagem da capital como destino turístico durante todo o ano. Quanto mais consistente for esse calendário, maior será a capacidade de gerar emprego, renda e oportunidades.
Os números agora conhecidos deixam uma lição importante. Quando há planejamento, organização e foco no desenvolvimento econômico, investir em cultura e turismo significa investir na própria cidade. E poucas estratégias oferecem retorno tão abrangente quanto aquela que movimenta simultaneamente comércio, serviços, hotelaria, gastronomia, transporte e lazer. Natal já deu um passo importante. Agora, o desafio é transformar esse sucesso em uma política permanente de desenvolvimento.