O caminho do Brasil nesta Copa do Mundo tem sido uma sucessão de aprendizados. A classificação às oitavas de final, conquistada com uma dramática vitória por 2 a 1 sobre o Japão, revela muito mais sobre a seleção de Carlo Ancelotti do que os placares elásticos construídos anteriormente. Se o empate na estreia acendeu dúvidas e as goleadas seguintes alimentaram um entusiasmo talvez exagerado, o mata-mata apresentou a realidade que acompanha qualquer candidato ao título: para ser campeão do mundo, é preciso saber sofrer.
A campanha começou de maneira pouco convincente. O empate diante do Marrocos expôs uma equipe ainda em construção, com dificuldades na criação das jogadas, pouca intensidade sem a bola e certa previsibilidade ofensiva. O resultado não chegou a comprometer a classificação, mas serviu para lembrar que a camisa pesa menos quando o adversário é bem organizado e disciplinado. O futebol mundial deixou de oferecer partidas fáceis apenas pelo peso da tradição.

Na segunda rodada, veio a vitória por 3 a 0 sobre o Haiti. O placar foi confortável, mas talvez tenha produzido uma leitura acima da realidade. O Haiti mostrou enorme fragilidade técnica e defensiva, oferecendo poucos obstáculos ao ataque brasileiro. Naturalmente, goleadas geram confiança, aumentam a autoestima do grupo e tranquilizam o ambiente. O problema é quando elas também criam uma percepção equivocada sobre o verdadeiro estágio da equipe.
A confirmação dessa impressão parecia surgir na terceira rodada, quando o Brasil voltou a vencer por 3 a 0, desta vez contra a Escócia. O adversário era tecnicamente superior ao Haiti e oferecia maior capacidade física, mas ainda assim apresentava limitações evidentes. A seleção brasileira dominou as ações e construiu um resultado seguro. Muitos passaram a enxergar naquele desempenho o nascimento de um favorito absoluto ao título.
A Copa do Mundo, porém, costuma ser implacável com conclusões precipitadas. O mata-mata elimina qualquer margem para acomodação. Não existe mais espaço para administrar resultados pensando na rodada seguinte. Cada erro custa caro. Cada detalhe ganha dimensão decisiva. Foi exatamente isso que o Japão mostrou.
Muito organizado defensivamente, disciplinado taticamente e extremamente eficiente na execução do plano de jogo, o time asiático fez o Brasil experimentar sua primeira verdadeira prova de resistência nesta Copa. O gol de Sano, ainda no primeiro tempo, não surgiu por acaso. Foi consequência de um erro brasileiro na saída de bola, algo que adversários mais qualificados dificilmente deixam passar despercebido.
Mais do que sair atrás no placar, a Seleção precisou conviver com uma situação pouco comum nos últimos jogos: a ansiedade. A posse de bola elevada deixava de ser suficiente. O tempo corria. O Japão permanecia compacto. Os espaços desapareciam. Pela primeira vez na competição, o Brasil precisou demonstrar maturidade emocional para não transformar o nervosismo em precipitação.
A resposta foi positiva. O empate de Casemiro recolocou o time na partida, mas foi a postura coletiva na segunda etapa que chamou atenção. Mesmo pressionado pela necessidade do resultado, o Brasil manteve a organização, aumentou a intensidade e seguiu acreditando que o gol chegaria. Não houve desespero. Houve insistência.
A virada construída por Gabriel Martinelli nos acréscimos simboliza justamente essa evolução. O lance nasce de uma recuperação de bola no ataque, passa pela inteligência de Bruno Guimarães e termina com uma finalização precisa. É um gol coletivo, construído por jogadores que compreenderam a importância de manter a concentração até o último minuto.
Também ficou evidente que alguns protagonistas começam a assumir responsabilidades. Bruno Guimarães talvez tenha feito sua melhor atuação na competição. Casemiro, mesmo alternando erros e acertos, mostrou personalidade para aparecer na área e marcar o gol do empate. Martinelli entrou durante o segundo tempo e decidiu a classificação. São respostas importantes quando a margem para erro diminui.
Isso não significa que o Brasil esteja pronto. Ainda existem problemas na saída de bola, momentos de desconcentração defensiva e dificuldades para acelerar a circulação contra linhas muito baixas. São aspectos que dificilmente passarão despercebidos por adversários mais fortes. A cada fase, a Copa se torna mais exigente.
Por isso, a classificação sobre o Japão talvez tenha sido mais valiosa do que qualquer goleada construída até aqui. Não apenas pelos dois gols marcados, mas pela maneira como eles foram conquistados. Grandes seleções não são medidas apenas pela capacidade de vencer quando tudo funciona. Elas são reconhecidas quando conseguem encontrar soluções justamente nos dias em que o jogo parece escapar de suas mãos.
No próximo domingo, dia 5 de julho, o Brasil enfrentará o vencedor do confronto entre Noruega e Costa do Marfim pelas oitavas de final. Independentemente do adversário, o desafio será ainda maior. A Noruega oferece a força ofensiva de Erling Haaland. A Costa do Marfim aposta na intensidade física, na velocidade e em um coletivo consistente. Nenhum dos dois permitirá os mesmos erros vistos diante do Japão.
A boa notícia para o torcedor brasileiro é que a Seleção parece ter deixado para trás a fase da ilusão. As vitórias sobre Haiti e Escócia alimentaram confiança, mas foi o sofrimento diante do Japão que apresentou um time mais preparado para a realidade do mata-mata. Se quiser voltar a levantar a taça da Copa do Mundo, o Brasil precisará repetir menos as goleadas confortáveis e mais a capacidade de reação demonstrada quando tudo parecia perdido. É justamente esse tipo de vitória que costuma moldar campanhas de campeões.