Em um Estado onde ainda são escassos estudos qualificados sobre algumas das principais questões públicas, um levantamento divulgado nesta semana pelo Conselho Regional de Economia (Corecon) veio em ótima hora. Ao calcular os efeitos dos recursos aplicados na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) sobre a atividade econômica, o Corecon oferece elementos concretos para uma discussão que ganhou espaço na pré-campanha eleitoral, porém vinha sendo conduzida muito mais à base de declarações enfáticas do que de dados.
O futuro da Uern entrou no centro da disputa pelo Governo do Estado depois que o pré-candidato Álvaro Dias (PL) cogitou, em maio, estudar alternativas como a privatização e a federalização da universidade. A repercussão foi negativa, sobretudo em Mossoró, sede histórica da instituição, o que levou o ex-prefeito de Natal a recuar.

Os adversários reagiram em sentido oposto. Allyson Bezerra (União) afirmou que a Uern é “inegociável” e que, se eleito, pretende governar em parceria com a instituição. Cadu Xavier (PT) acusou Álvaro de tratar como problema uma universidade que transforma a vida de milhares de jovens. As manifestações revelaram o peso político, social e afetivo da Uern. Faltaram, porém, argumentos mais consistentes sobre seu funcionamento, seus custos, seus resultados e a dimensão de sua contribuição para o Rio Grande do Norte.
Houve quem cogitasse mudanças profundas e voltasse atrás quando a fala pegou mal. Houve quem defendesse a universidade com unhas e dentes. Nos dois casos, a saliva dos discursos ocupou espaço demais. A instituição merece uma discussão mais séria do que a simples escolha entre atacá-la e abraçá-la, conforme a conveniência eleitoral de cada momento.
O estudo do Corecon ajuda a mudar esse padrão. Com base na execução orçamentária de 2024, os economistas Adonias Vidal de Medeiros Júnior e Arthur Henrique Pinheiro Néo estimaram que cada R$ 1 investido pela Uern gera R$ 1,45 em produção econômica no Estado.
Os cálculos mostram que o dinheiro destinado à universidade circula por muitos setores. A folha de pagamento, as bolsas, as obras, as reformas, as compras de materiais e equipamentos e a contratação de serviços produzem demanda para o comércio, a construção civil, os transportes, a tecnologia, as telecomunicações, o mercado imobiliário, a alimentação, a hotelaria e outros segmentos. Como a Uern mantém seis campi e cerca de 20 polos de educação a distância, parte relevante dessa movimentação alcança municípios do interior.
Os próprios autores consideram os resultados conservadores. A falta de informações estatísticas impede que sejam medidos todos os efeitos sucessivos sobre emprego, renda e consumo. Uma etapa mais abrangente do estudo poderá apontar impacto de aproximadamente R$ 2,7 bilhões e a geração de 17 mil a 22 mil empregos. São projeções preliminares que ainda precisam ser aprofundadas, porém já indicam a extensão da contribuição que permanecia ausente do debate público.
A análise do futuro da Uern deverá considerar esses efeitos. O orçamento da instituição está projetado em R$ 496,8 milhões para 2026. Trata-se de uma soma expressiva em um Estado submetido a graves restrições financeiras, com dificuldades para pagar fornecedores, executar investimentos e atender satisfatoriamente demandas básicas. O gasto precisa ser examinado com rigor. Mas o retorno produzido por ele também merece ser considerado.
Este jornal não toma partido entre os grupos que passaram a disputar a condição de maiores defensores da universidade. Também não adere, de forma antecipada, a qualquer proposta de mudança em seu modelo. O que se defende é um debate capaz de enxergar todas as nuances. A repercussão econômica apresentada pelo Corecon é uma delas. A realidade fiscal do Estado, as limitações orçamentárias e a necessidade de melhorar a aplicação dos recursos públicos formam outra parte indispensável dessa avaliação.
Também deverá entrar nessa conta a situação da educação básica, área em que o Rio Grande do Norte ainda apresenta resultados aquém do ideal e precisa ampliar investimentos e melhorar a qualidade do ensino. A Uern participa diretamente desse desafio: aproximadamente 90% dos professores das redes públicas do interior potiguar foram formados pela instituição.
A universidade mantém 109 cursos de graduação e pós-graduação, reúne mais de 1,5 mil servidores e já diplomou mais de 72,5 mil profissionais. Sua contribuição alcança a produção científica, a pesquisa, a extensão, a inovação, a formação de mão de obra e a redução das desigualdades regionais. Esses resultados precisam ser confrontados com os custos, as prioridades estaduais, a eficiência administrativa e as possibilidades de aprimoramento da instituição.
O levantamento do Corecon fornece um ponto de partida muito mais útil do que palavras de ordem. Cabe agora a todos os pré-candidatos estudar o documento, conhecer suas limitações, confrontar suas conclusões com outros dados e apresentar propostas fundamentadas. Privatizar, federalizar, manter, ampliar ou reformar são posições que exigem explicações detalhadas sobre viabilidade, consequências e benefícios.
O eleitor merece saber quanto a Uern custa, quanto devolve à sociedade, o que realiza, onde precisa avançar e como será financiada. O futuro de uma instituição com tamanha presença na vida do RN não pode ser decidido pelo volume dos discursos.