A candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro ainda conserva uma base eleitoral expressiva, mas começa a perder aquilo de que mais necessita para se transformar em um projeto efetivamente competitivo: confiança política, capacidade de agregação e perspectiva de vitória. O senador permanece como principal nome da oposição nas pesquisas, sustentado pelo capital eleitoral herdado do pai, porém dá sinais de isolamento crescente. O processo já ultrapassou os limites da política partidária e chegou ao mercado financeiro, onde gestores, economistas e empresários passaram a torcer abertamente por sua desistência.
Como mostrou o AGORA RN na edição desta terça-feira, o setor que apoiou Jair Bolsonaro em nome de uma agenda econômica liberal não demonstra a mesma disposição em relação ao filho. Permanece um núcleo de bolsonaristas convictos, mas a maioria dos interlocutores já considera Flávio incapaz de vencer Lula.

Flávio mantém entre 32% e 35% das intenções de voto, conforme destaca o senador Rogério Marinho, coordenador de sua campanha. É um patamar significativo, que comprova a força do bolsonarismo e impede qualquer diagnóstico precipitado de irrelevância. Mas esse mesmo piso pode transformar-se em teto. O candidato concentra um terço do eleitorado, bloqueia a ascensão de outras alternativas à direita e, ao mesmo tempo, não demonstra capacidade para ampliar alianças, reduzir a rejeição ou conquistar setores situados fora do círculo bolsonarista.
A sucessão de episódios recentes agravou a desconfiança. Pesam contra Flávio as contradições sobre sua proximidade com Daniel Vorcaro, do Banco Master. Integrantes do mercado sentiram-se enganados pelas explicações apresentadas pelo senador. A existência de uma investigação sobre o caso amplia o desconforto e alimenta a percepção de que novas mensagens, vídeos ou revelações podem surgir durante a campanha. O receio mais grave é que algum fato comprometedor seja divulgado somente no segundo turno, quando uma substituição já seria inviável e o dano poderia favorecer diretamente a reeleição de Lula.
A fragilidade também aparece na articulação política. Flávio não conseguiu assegurar o apoio do PP, não convenceu Tereza Cristina a integrar sua chapa e se afastou de lideranças próximas ao próprio Jair Bolsonaro, entre elas Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e candidato preferido de boa parte do setor financeiro. O confronto público com Michelle Bolsonaro, uma liderança consolidada entre mulheres e evangélicos, foi igualmente recebido como um erro estratégico. Em vez de ampliar o arco de sustentação, o senador acumula disputas dentro do campo que deveria estar unido em torno de sua candidatura.
É nesse espaço que o mercado começa a enxergar Ronaldo Caiado, agora no PSD, associado a Gilberto Kassab, como uma opção mais estável, liberal na economia e credenciada pela política de segurança pública conduzida em Goiás. Romeu Zema e Renan Santos também despertam simpatias, embora nenhum deles disponha, neste momento, da densidade eleitoral de Flávio.
Rogério Marinho reagiu chamando Caiado de “oposição fake”, por pertencer a um partido que mantém três ministros no Governo Lula. Para o senador potiguar, as especulações constituem uma nova tentativa do “sistema” de afastar o bolsonarismo da liderança da oposição. O argumento mobiliza a militância e reforça a narrativa de perseguição, mas não responde às dúvidas sobre a capacidade de Flávio para construir maioria. Também não resolve o isolamento partidário nem dissipa as suspeitas que deterioraram sua imagem entre empresários. A fidelidade de um terço do eleitorado pode garantir presença no segundo turno; não garante a vitória.
A desconfiança já aparece nas avaliações sobre os ativos brasileiros. Bancos, corretoras e gestoras trabalhariam com a perspectiva de reeleição de Lula, refletida no dólar acima de R$ 5, nos juros futuros elevados e nos títulos públicos pagando taxas próximas das maiores desde o governo Dilma Rousseff. As NTN-Bs oferecem cerca de 8% acima da inflação, enquanto os prefixados se aproximam de 15% ao ano. Parte desse movimento, evidentemente, decorre da situação fiscal, da dívida bruta equivalente a 81,1% do PIB e de fatores externos, como a guerra no Irã e os efeitos sobre as commodities. Seria exagero atribuir tudo à eleição. Mas a ausência de uma oposição percebida como viável contribui para a expectativa de continuidade da política econômica.
O definhamento de Flávio, portanto, não se mede apenas por pesquisas. Ele aparece na perda de confiança, na dificuldade de formar alianças, na sucessão de crises e na preferência crescente por alternativas ainda eleitoralmente menores. Sua candidatura continua de pé e mantém uma base sólida, mas parece cada vez mais presa ao sobrenome que lhe garantiu a largada. Se não demonstrar capacidade de ultrapassar os limites do bolsonarismo, poderá chegar ao segundo turno não como ameaça real a Lula, mas como o melhor adversário que o petismo gostaria de enfrentar.