A democracia pressupõe confronto de ideias, fiscalização rigorosa, crítica contundente e liberdade para que adversários exponham suas diferenças. Não comporta, porém, ameaças, intimidação, agressões físicas ou qualquer tentativa de retirar alguém da disputa pelo medo. Os episódios registrados nos últimos dias no Rio Grande do Norte, embora tenham gravidades muito distintas, mostram como a violência continua sendo empregada para constranger quem participa da vida pública. Essa escalada precisa ser interrompida antes que atos inicialmente tratados como provocações ou excessos produzam consequências irreversíveis.
O caso mais grave é o das ameaças contra Natália Bonavides, Brisa Bracchi e Juliana Garcia, todas candidatas pelo PT. Natália e Brisa receberam mensagens com ameaças de estupro, esquartejamento e morte, além da exposição de dados pessoais e informações sobre familiares; Juliana, sobrevivente de uma tentativa de feminicídio, voltou a ser atacada com comentários que celebravam a agressão sofrida em 2025 e sugeriam nova violência. Não se trata de crítica política, mas de intimidação criminosa, marcada por misoginia e pelo objetivo de afastar mulheres da vida pública por meio do medo.

Nada disso pode ser confundido com crítica política. Ameaçar estupro, assassinato ou esquartejamento não é emitir opinião, exercer liberdade de expressão ou participar do debate democrático. É conduta criminosa, que exige identificação dos responsáveis, investigação sobre eventual articulação coletiva, responsabilização e proteção efetiva às vítimas e aos familiares. Quando o ataque é dirigido a mulheres com referências sexuais, misóginas e LGBTfóbicas, existe ainda uma tentativa deliberada de comunicar que a política seria um território masculino e que a participação feminina será punida com violência. O Estado não pode permitir que esse método prospere.
Em outro episódio, de gravidade incomparavelmente menor, mas também condenável, o senador Rogério Marinho (PL) foi atingido por um ovo quando deixava uma manifestação de 7 de Setembro no Largo do Atheneu, em Natal. O autor, de 24 anos, foi detido, levado à Delegacia Central de Flagrantes, assinou um termo circunstanciado e responderá por injúria. Segundo a Polícia Civil, ele afirmou ter saído de São Paulo do Potengi já com a intenção de atingir o senador e disse que agiu sozinho. O celular foi apreendido para verificar se houve participação de outras pessoas. A investigação deverá apurar se o ataque foi realmente individual.
Uma ovada não se equipara, sob qualquer parâmetro, a ameaças de estupro, esquartejamento e morte. Estabelecer essa diferença é indispensável para preservar a proporção dos fatos. Isso não significa, contudo, aceitar o lançamento de objetos como forma legítima de protesto. A agressão deve ser condenada independentemente de quem seja o alvo e de qual posição política defenda. O cidadão pode vaiar, protestar, questionar e votar contra. Não pode substituir argumentos por violência física. Relativizar uma agressão porque a vítima é adversária apenas prepara o terreno para que o mesmo método seja empregado, amanhã, contra quem hoje o tolera.
O histórico recente do RN impede que ameaças sejam minimizadas: Neném Borges, prefeito de São José do Campestre, foi assassinado em 2023; Marcelo Oliveira, prefeito de João Dias e candidato à reeleição, foi morto com o pai em 2024; e o ex-prefeito de São Pedro Miguel Cabral Nasser foi executado em Natal em 2025. Embora os crimes tenham circunstâncias distintas, os episódios reforçam a necessidade de prevenção e investigação rigorosa de qualquer ameaça contra agentes políticos.
Esses crimes possuem circunstâncias, investigações e possíveis motivações próprias. Não devem ser artificialmente reunidos sob uma explicação única. Ainda assim, formam um histórico que impede o Estado de tratar ameaças contra agentes políticos como bravatas inofensivas. Quando representantes públicos já foram executados, a prudência exige levar a sério qualquer anúncio de violência, sobretudo quando há datas, rotinas, endereços e informações familiares nas mensagens.
As autoridades devem agir com rapidez para identificar autores, cúmplices, financiadores e eventuais grupos organizados. Também precisam garantir proteção proporcional ao risco e impedir a repetição dos ataques. Aos candidatos, partidos e apoiadores cabe estabelecer uma fronteira inequívoca: divergência não autoriza agressão, e conveniência eleitoral não justifica silêncio seletivo. A violência política deve ser condenada sempre, venha de onde vier e tenha quem tiver como alvo. A eleição precisa ser decidida pelo voto, pelas propostas e pelo julgamento livre dos cidadãos — nunca pelo medo.