BUSCAR
BUSCAR
Editorial

Além da queda do desemprego

A menor taxa de desemprego da história é uma conquista importante, mas precisa servir como ponto de partida
Editorial
18/08/2026 | 01:43

O Rio Grande do Norte alcançou no segundo trimestre de 2026 um resultado que merece ser reconhecido: a taxa de desocupação caiu para 5,6%, o menor nível da série histórica iniciada em 2012. O indicador aproxima o Estado da média brasileira, de 5,4%, e representa uma mudança expressiva tanto em relação aos três primeiros meses do ano quanto ao mesmo período de 2025.

Entre abril e junho, 30 mil potiguares deixaram a condição de desocupados. O contingente de pessoas sem trabalho e à procura de uma vaga recuou de 113 mil para 83 mil, uma redução de 26,7% em apenas três meses. A queda de 1,9 ponto percentual foi a maior entre as 13 unidades da Federação que apresentaram uma redução estatisticamente confirmada no período. Também merece registro o recuo do desalento: eram 58 mil pessoas nessa situação, contra 84 mil um ano antes.

São números positivos, especialmente em um Estado que enfrenta limitações históricas na geração de oportunidades, na diversificação econômica e na capacidade de reter profissionais qualificados. O emprego é um dos principais caminhos para ampliar a renda, reduzir vulnerabilidades e fortalecer a atividade econômica. Quando mais pessoas conseguem ingressar no mercado, os benefícios alcançam as famílias, o comércio, os serviços e a arrecadação pública.

A ressalva necessária aparece quando se observa o que existe por trás do índice global. A taxa de desemprego informa quantas pessoas procuraram trabalho e não encontraram, mas não descreve, sozinha, a qualidade das vagas disponíveis, o nível de remuneração ou as desigualdades que continuam condicionando o acesso às oportunidades. O bom resultado, portanto, não encerra a discussão. Ao contrário, deve torná-la mais exigente.

A expansão do emprego precisa vir acompanhada de ganho de renda e produtividade para produzir uma melhora duradoura nas condições de vida.

A informalidade é um dos pontos de atenção. O Estado mantém, desde 2023, a menor taxa do Nordeste, o que constitui uma vantagem regional. Ainda assim, 41,3% dos trabalhadores potiguares estavam na informalidade, percentual superior à média brasileira de 37,4%. São 571 mil pessoas trabalhando sem algumas das proteções associadas à formalização, como estabilidade contratual, previdência, férias remuneradas e maior segurança de renda.

Há ainda 58 mil desalentados, pessoas que poderiam trabalhar, mas deixaram de procurar uma vaga por falta de oportunidades, experiência ou qualificação, entre outros motivos. Elas não integram a taxa de desemprego justamente porque já não estão buscando ocupação. A redução desse contingente em relação a 2025 é alentadora, mas o número continua expressivo e revela a existência de uma parcela da população ainda distante do mercado.

Os recortes nacionais do IBGE reforçam a necessidade de enxergar além da média. Embora não possam ser automaticamente transferidos para a realidade potiguar, mostram um padrão estrutural que os gestores não podem ignorar. No País, o desemprego entre as mulheres foi de 6,4%, contra 4,6% entre os homens. Entre pessoas pretas, chegou a 6,9%, enquanto entre as brancas ficou em 4,2%. O ensino superior completo, por sua vez, reduziu a taxa a 3%, diante de 9% entre aqueles que não concluíram o ensino médio.

Essas diferenças demonstram que o crescimento econômico e a abertura de vagas não distribuem seus efeitos de maneira automática. Mulheres ainda enfrentam o peso desproporcional do trabalho doméstico e do cuidado. Pretos e pardos convivem com barreiras históricas de acesso. Quem abandona os estudos encontra maior dificuldade para disputar empregos formais e melhor remunerados.

A menor taxa de desemprego da história é uma conquista importante, mas precisa servir como ponto de partida. O próximo desafio é reduzir a informalidade, elevar a renda, qualificar trabalhadores e ampliar o acesso dos grupos que continuam em desvantagem. Não basta criar trabalho. É necessário garantir que as oportunidades sejam dignas, produtivas e distribuídas com maior igualdade.