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Operação Sem Lastro

Dinheiro “intacto” afasta caixa dois, como diz Luiz Eduardo, ou apenas transfere a investigação?

A condição alegada pela defesa responde à ausência de gasto, mas origem, declaração, motivo do saque e eventual destino continuam sob apuração
Editorial
15/09/2026 | 11:54

O fato de os R$ 1,51 milhão terem sido encontrados intactos na residência do deputado estadual e candidato à reeleição Luiz Eduardo Bento da Silva (PL) constitui o ponto central da defesa contra a suspeita de caixa dois. A mesma circunstância, porém, não encerra todas as questões investigadas pela Polícia Federal: ela desloca a apuração do gasto para a origem, a declaração e a eventual destinação do dinheiro.

“Os valores sacados permaneciam guardados em sua residência e não foram gastos, circunstância que, por si só, afasta qualquer finalidade eleitoral”, afirmou a defesa. O argumento parte de um fato objetivo apresentado pelos advogados: o dinheiro retirado do banco teria sido encontrado no mesmo local e sem utilização.

Luiz Eduardo durante vídeo em que fala sobre o dinheiro apreendido pela Polícia Federal
Luiz Eduardo durante vídeo em que explicou a origem do dinheiro apreendido em sua residência — Foto: Reprodução/Redes sociais

Luiz Eduardo reforçou essa versão ao confirmar a propriedade da quantia. “Estava aqui na minha casa intacto o dinheiro, guardado na minha casa”, declarou. O deputado afirmou que os R$ 1,51 milhão saíram de sua previdência em um único saque realizado em 8 de julho.

A condição de dinheiro intacto responde diretamente a uma pergunta: houve despesa realizada com aquele valor? Pela versão da defesa e pelo fato de a quantia ter sido apreendida, a resposta é não. O recurso encontrado pela PF não poderia ter sido simultaneamente utilizado em pagamentos e permanecido integralmente guardado na residência.

Essa constatação tem peso na linha adotada pelos advogados. “Não há ‘caixa dois’ sem recurso arrecadado à margem da prestação de contas ou aplicado em despesa de campanha, e nenhuma dessas hipóteses ocorreu”, diz a nota. A defesa sustenta que se tratava de patrimônio particular, retirado de uma conta do próprio parlamentar, e não de dinheiro arrecadado para financiar a candidatura.

O estado em que o dinheiro foi encontrado não responde sozinho, contudo, a uma segunda pergunta: para que a retirada foi realizada? Luiz Eduardo informou a origem alegada, o valor, a data e a forma do saque. Não declarou qual utilização havia planejado para a quantia nem por que decidiu manter R$ 1,51 milhão fora do sistema bancário durante 68 dias.

Essa ausência de explicação não comprova finalidade eleitoral. Também não permite concluir qual seria o destino futuro do dinheiro. A apreensão interrompeu qualquer possibilidade de movimentação posterior, e a simples condição de valor intacto não revela o que ocorreria se a operação não tivesse sido deflagrada.

O dinheiro permanecer guardado pode ser compatível com a versão de que não seria utilizado na campanha. Pode também fazer com que a investigação procure a resposta em outros elementos, como documentos, mensagens, registros bancários e equipamentos eletrônicos apreendidos. O estado físico da quantia mostra que ela não foi gasta; não demonstra, isoladamente, por qual razão foi retirada.

A terceira questão envolve a declaração do recurso. A defesa classificou a movimentação como “lícita, declarada e de origem plenamente comprovada”, mas não informou em qual documento o dinheiro foi declarado. Na relação de bens apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), não consta valor em espécie.

Luiz Eduardo declarou patrimônio total de R$ 1.343.782,02. A quantia que afirma ter guardado em casa supera esse total em R$ 166.217,98. Entre os bens relacionados aparece um plano de previdência Brasilprev VGBL avaliado em R$ 719.951,51, valor R$ 790.048,49 inferior ao saque mencionado pelo parlamentar.

A diferença não representa, por si só, prova de irregularidade. O saldo da aplicação pode ter variado, pode haver outra previdência ou podem existir datas de referência distintas. A confirmação depende dos extratos anteriores e posteriores ao saque, da ordem de resgate e do comprovante da retirada.

A afirmação de que o dinheiro permaneceu intacto também torna possível acompanhar sua transformação patrimonial. Se saiu de uma previdência e não foi gasto, o recurso deixou de aparecer como saldo de uma aplicação, mas continuou existindo em espécie. Os documentos deverão mostrar como essa mudança foi registrada nas declarações entregues pelo deputado.

A Polícia Federal deflagrou a Operação Sem Lastro na segunda-feira 14 e cumpriu dois mandados de busca e apreensão em Natal, autorizados pela Justiça Eleitoral. Mais de R$ 1,5 milhão, celulares, documentos e equipamentos eletrônicos foram apreendidos.

Segundo a corporação, a investigação apura indícios de falsidade ideológica eleitoral e a possível utilização de recursos financeiros não declarados em atividades de campanha. A PF informou ter identificado saques em espécie realizados por um servidor do Rio Grande do Norte em circunstâncias que indicariam incompatibilidade com o patrimônio declarado à Justiça Eleitoral.

O comunicado oficial não identificou Luiz Eduardo, não divulgou os endereços das buscas nem especificou quanto foi apreendido em cada local. O próprio deputado confirmou que a residência dele foi alvo da operação e afirmou que os R$ 1,51 milhão encontrados pertencem a ele.

“Eu não conheço nenhuma lei que proíba você guardar dinheiro em casa”, declarou Luiz Eduardo. A investigação não se limita, porém, ao ato de manter dinheiro na residência. O objeto divulgado pela PF envolve a compatibilidade dos valores com o patrimônio declarado e a possibilidade de utilização de recursos não informados em campanha.

Não foram divulgados indiciamento, denúncia do Ministério Público ou decisão judicial que reconheça caixa dois, falsidade ideológica eleitoral ou outro crime praticado pelo deputado. Também não há prova publicada de que o dinheiro seria usado na eleição.

A alegação de que a quantia estava intacta poderá ser confrontada com os demais elementos recolhidos. Se confirmada, demonstrará que os R$ 1,51 milhão não haviam sido gastos até a apreensão. As outras perguntas — por que o dinheiro foi retirado, como foi declarado e qual seria sua destinação — permanecem submetidas à investigação.