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Operação Sem Lastro

Deputado diz que retirou R$ 1,51 milhão da previdência e guardou em casa por 68 dias

Em vídeo, candidato afirma que fez saque único em 8 de julho, manteve todo o valor intacto na residência e nega qualquer finalidade eleitoral
Agora RN
14/09/2026 | 23:22

O deputado estadual e candidato à reeleição Luiz Eduardo Bento da Silva (PL) afirmou que os R$ 1,51 milhão apreendidos pela Polícia Federal em sua residência foram retirados de sua previdência em um único saque, realizado em 8 de julho. Segundo o parlamentar, o dinheiro permaneceu intacto dentro de casa durante 68 dias, até a Operação Sem Lastro, deflagrada na segunda-feira 14.

“Hoje houve uma operação na minha casa e foi apreendido R$ 1.510.000, dinheiro sacado da minha Previdência, e o saque foi feito no dia 8 de julho”, declarou Luiz Eduardo em vídeo divulgado após a ação policial. É a primeira vez que ele informa publicamente o valor exato encontrado no imóvel, a alegada origem dos recursos e a data da retirada.

Luiz Eduardo fala ao microfone na Assembleia Legislativa do RN, em foto de arquivo
Deputado estadual Luiz Eduardo em pronunciamento na Assembleia Legislativa do RN, em foto de arquivo — Foto: Eduardo Maia/ALRN

O deputado também afirmou que o montante foi sacado de uma só vez. “Um saque único, não foi saque fatiado tentando ludibriar, enganar o Banco Central e o Coaf, não. Foi um saque único e estava aqui na minha casa intacto o dinheiro, guardado na minha casa”, disse.

A declaração acrescenta informações que não constavam da primeira nota divulgada pela defesa. O pronunciamento, porém, não explica por que Luiz Eduardo retirou R$ 1,51 milhão do sistema financeiro, por qual motivo preferiu manter toda a quantia em espécie dentro de casa nem qual seria a destinação futura do dinheiro.

“Eu não conheço nenhuma lei que proíba você guardar dinheiro em casa”, afirmou. A investigação da PF não tem como objeto apenas a manutenção de dinheiro na residência. A corporação apura a origem e a possível destinação eleitoral de recursos movimentados em espécie, além da compatibilidade dos valores com o patrimônio declarado à Justiça Eleitoral.

Luiz Eduardo também não identificou a instituição responsável pela previdência nem apresentou no vídeo extratos, comprovantes do saque ou documentos que demonstrem a origem alegada. “Quero dizer para vocês que eu sou mão limpa, mão limpas, o meu dinheiro é limpo”, declarou.

A relação do saque com a declaração de bens apresentada pelo candidato ainda não foi esclarecida. A candidatura de Luiz Eduardo foi registrada na Justiça Eleitoral em 31 de julho, 23 dias depois da data em que ele afirma ter retirado os R$ 1,51 milhão e enquanto, segundo sua versão, o dinheiro permanecia em casa.

Na declaração de 2026, o deputado informou patrimônio total de R$ 1.343.782,02, sem registrar dinheiro em espécie. A lista inclui R$ 719.951,51 em um plano Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL), modalidade de previdência privada, dois apartamentos avaliados em R$ 250 mil cada, um consórcio de automóvel de R$ 102.023,01 e saldos bancários de R$ 21.762,70 e R$ 44,80.

O parlamentar não informou se a “Previdência” mencionada no vídeo corresponde ao VGBL declarado nem explicou por que a aplicação aparece com saldo de R$ 719.951,51 depois do saque alegado. Também não esclareceu como o valor mantido em casa foi retratado na documentação entregue à Justiça Eleitoral.

Luiz Eduardo havia declarado dinheiro vivo nas três eleições anteriores que disputou. Foram informados R$ 150 mil em espécie em 2016, R$ 30 mil em 2020 e R$ 50 mil em 2022. Na candidatura atual, não aparece nenhum bem nessa categoria.

A Operação Sem Lastro cumpriu dois mandados de busca e apreensão em Natal, autorizados pela Justiça Eleitoral. A PF informou ter recolhido mais de R$ 1,5 milhão em dinheiro, além de celulares, documentos e equipamentos eletrônicos. Não houve prisão.

Segundo a corporação, a investigação apura indícios de falsidade ideológica eleitoral e a possível utilização de recursos financeiros não declarados em atividades de campanha. A PF afirmou ter identificado saques realizados por um servidor do Rio Grande do Norte em circunstâncias que indicariam incompatibilidade entre a movimentação e o patrimônio declarado.

O comunicado oficial não citou Luiz Eduardo, não informou os endereços das buscas nem detalhou quanto havia sido apreendido em cada local. O próprio deputado passou a estabelecer diretamente essa ligação ao afirmar que a operação ocorreu em sua casa e que os R$ 1,51 milhão foram encontrados no imóvel.

Na primeira manifestação, a defesa classificou a movimentação como “lícita, declarada e de origem plenamente comprovada” e informou que a documentação seria entregue às autoridades. “Os valores sacados permaneciam guardados em sua residência e não foram gastos”, declarou a nota. Os documentos ainda não foram apresentados publicamente.

A defesa sustenta que não houve arrecadação à margem da prestação de contas nem aplicação do dinheiro em despesas eleitorais. Luiz Eduardo voltou a negar qualquer irregularidade e encerrou o vídeo pedindo votos. “Sou candidato a deputado estadual à reeleição e peço o seu voto e continue confiando na gente”, afirmou.

A investigação permanece em andamento. Até o momento, não foram divulgados indiciamento, denúncia do Ministério Público ou decisão judicial que reconheça a prática de caixa dois ou de outro crime pelo deputado. A PF deverá confrontar a explicação apresentada por Luiz Eduardo com os registros bancários, a declaração patrimonial, as contas eleitorais e o material recolhido durante as buscas.

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