BUSCAR
BUSCAR
Operação Sem Lastro

Luiz Eduardo diz que tinha R$ 1,51 milhão em casa, mas não declarou valor ao TSE

Registro apresentado 23 dias depois do saque lista R$ 1,34 milhão em patrimônio e um VGBL de R$ 719,9 mil, mas nenhum dinheiro em espécie
Agora RN
15/09/2026 | 06:20

O deputado estadual e candidato à reeleição Luiz Eduardo Bento da Silva (PL) afirmou que mantinha R$ 1,51 milhão em dinheiro vivo dentro de casa desde 8 de julho. O valor, porém, não aparece como dinheiro em espécie na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral no pedido de registro de sua candidatura, protocolado em 31 de julho, 23 dias depois do saque informado pelo próprio parlamentar.

“Hoje houve uma operação na minha casa e foi apreendido R$ 1.510.000,00, dinheiro sacado da minha Previdência”, declarou Luiz Eduardo em vídeo divulgado na segunda-feira 14. Segundo ele, o montante foi retirado de uma só vez e permaneceu guardado na residência durante 68 dias, até ser recolhido pela Polícia Federal.

Luiz Eduardo fala ao microfone na Assembleia Legislativa do RN, em foto de arquivo
Deputado estadual Luiz Eduardo em pronunciamento na Assembleia Legislativa do RN, em foto de arquivo — Foto: Eduardo Maia/ALRN

“O saque foi feito no dia 8 de julho, um saque único, não foi saque fatiado tentando ludibriar, enganar o Banco Central e o Coaf, não. Foi um saque único e estava aqui na minha casa intacto o dinheiro, guardado na minha casa”, afirmou.

A relação entregue ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informa que Luiz Eduardo possui patrimônio total de R$ 1.343.782,02. Portanto, os R$ 1,51 milhão que o deputado afirma ter mantido em casa superam em R$ 166.217,98 a soma de todos os bens declarados por ele.

A declaração contém dois apartamentos avaliados em R$ 250 mil cada, um consórcio de automóvel do Banco do Brasil no valor de R$ 102.023,01 e um plano de previdência Brasilprev VGBL de R$ 719.951,51. Também constam duas contas bancárias, uma com R$ 44,80 e outra com R$ 21.762,70. Nenhum item registra dinheiro em espécie.

O valor atribuído ao VGBL é R$ 790.048,49 inferior ao montante que o parlamentar diz ter retirado da previdência. Essa diferença, isoladamente, não comprova irregularidade, porque o valor informado à Receita Federal pode corresponder ao saldo existente em 31 de dezembro e não necessariamente ao total disponível para resgate em 8 de julho. A resolução eleitoral exige, entretanto, uma relação atual dos bens do candidato, ainda que cada item seja apresentado pelo valor declarado ao Fisco.

Luiz Eduardo não explicou por que o dinheiro vivo existente antes do protocolo do registro não aparece na declaração eleitoral. Também não apresentou publicamente o extrato do plano previdenciário, a ordem de resgate, o comprovante bancário do saque nem o saldo remanescente depois da operação financeira.

“Eu não conheço nenhuma lei que proíba você guardar dinheiro em casa. Quero dizer para vocês que eu sou mão limpa, mão limpas, o meu dinheiro é limpo”, declarou o deputado. No mesmo vídeo, ele renovou o pedido de voto para a eleição deste ano e afirmou que pretende continuar trabalhando pelo turismo do Rio Grande do Norte.

Em nota, a defesa classificou os saques como uma “movimentação lícita, declarada e de origem plenamente comprovada” e informou que os documentos serão apresentados às autoridades. “Os valores sacados permaneciam guardados em sua residência e não foram gastos, circunstância que, por si só, afasta qualquer finalidade eleitoral”, declarou.

A apreensão ocorreu durante a Operação Sem Lastro, deflagrada pela Polícia Federal na segunda-feira 14. Dois mandados de busca e apreensão autorizados pela Justiça Eleitoral foram cumpridos em Natal. Além de mais de R$ 1,5 milhão em espécie, foram recolhidos celulares, documentos e equipamentos eletrônicos.

Segundo a PF, a investigação apura indícios de falsidade ideológica eleitoral e a possível utilização de recursos financeiros não declarados em atividades de campanha. A corporação informou ter identificado saques realizados por um servidor do Rio Grande do Norte em circunstâncias que indicariam incompatibilidade entre os valores movimentados e o patrimônio declarado à Justiça Eleitoral.

O comunicado oficial da PF não identificou Luiz Eduardo nem informou os endereços das buscas. A ligação do deputado com o dinheiro foi confirmada por ele próprio no vídeo. A incompatibilidade entre sua versão e a relação de bens não prova, por si só, falsidade ideológica eleitoral, crime que depende da demonstração de dolo e finalidade eleitoral. Os documentos financeiros e os materiais apreendidos serão analisados no curso da investigação.