As duras críticas feitas por Carlos Eduardo Alves a Álvaro Dias não podem ser compreendidas apenas como um movimento eleitoral destinado a desgastar um adversário de Allyson Bezerra na disputa pelo Governo do Rio Grande do Norte. Há, evidentemente, estratégia política nas declarações do ex-prefeito, hoje aliado de Allyson e envolvido diretamente na campanha em Natal.
Mas há também uma mágoa pessoal profunda, alimentada pelo sentimento de que Álvaro não demonstrou gratidão a quem lhe abriu as portas da Prefeitura e lhe ofereceu a maior oportunidade de sua trajetória política. Quando Carlos fala em “traição”, “deslealdade” e “ingratidão”, ele procura apresentar ao eleitor um histórico de episódios que, em sua visão, justificam a agressividade empregada contra o antigo aliado.

Carlos e Álvaro não eram apenas integrantes ocasionais de uma mesma coligação. Mantinham uma amizade de muitos anos, com convivência entre as famílias e visitas às casas um do outro. Em 2016, Carlos era candidato à reeleição em Natal e escolheu Álvaro para ser seu vice-prefeito. Dois anos depois, renunciou ao cargo para disputar o Governo do Estado e entregou ao companheiro de chapa o comando de Natal. Álvaro, que havia construído sua carreira política em Caicó, recebeu assim três anos de mandato na capital, estrutura administrativa montada e a possibilidade de disputar a reeleição em 2020 já ocupando a Prefeitura.
É esse gesto que Carlos invoca repetidamente quando acusa o sucessor de ingratidão. Em suas palavras, Álvaro era naquele momento um “político decadente”, com dificuldades eleitorais e sem uma trajetória consolidada em Natal. A descrição é deliberadamente severa, mas serve à narrativa central do ex-prefeito: Álvaro teria recuperado força política graças à oportunidade que recebeu e, uma vez instalado no poder, voltado-se contra quem o beneficiou. Carlos afirma que as hostilidades começaram poucos dias depois da transição e resume sua percepção com uma máxima conhecida: “Se você quer conhecer uma pessoa, dê o poder a ela”.
A exoneração de Andréa Ramalho, esposa de Carlos, da Secretaria Municipal de Políticas Públicas para as Mulheres, em 2022, ampliou o ressentimento. Segundo o relato do ex-prefeito, ela não recebeu telefonema ou aviso prévio e soube da demissão ao chegar ao trabalho, quando uma pessoa lhe apresentou o Diário Oficial. Mais do que uma substituição administrativa, Carlos interpretou o episódio como uma humilhação dirigida à sua família. A partir dali, a ruptura deixou de ser apenas uma divergência entre dois líderes políticos e ganhou um componente pessoal difícil de superar. Não por acaso, ao rebater declarações de Álvaro em outubro de 2025, Carlos utilizou termos como “cretino”, “mentiroso” e “sujeito ruim”.
A eleição de 2024 consolidou o rompimento. Até os últimos momentos da pré-campanha, havia expectativa de que Álvaro, então prefeito, retribuísse o apoio recebido anteriormente e respaldasse a candidatura de Carlos Eduardo à Prefeitura. Isso não aconteceu. Álvaro decidiu apoiar Paulinho Freire, que venceu a eleição, enquanto Carlos terminou em terceiro lugar e ficou fora do segundo turno.
Para Carlos, a decisão representou a confirmação definitiva da deslealdade. Ele sustenta que a aliança não avançou porque Álvaro condicionou o apoio ao controle de secretarias municipais “de porteira fechada”. Seriam cinco pastas. Na versão de Carlos, não se tratava de uma aliança, mas de uma tentativa de controlar setores da administração.
Álvaro apresentou outra narrativa. Segundo ele, cumpriu os compromissos assumidos na transição e manteve parte significativa do secretariado que recebeu em 2018. Carlos rebate que nunca pediu a permanência de auxiliares e afirma que o sucessor preservou a equipe porque não conhecia suficientemente Natal nem possuía quadros próprios para ocupar os cargos. O ex-prefeito admite apenas ter solicitado a transferência de Andréa Ramalho para a Assistência Social, pedido que, de acordo com ele, foi negado.
Agora, as críticas pessoais se misturam ao julgamento administrativo. Carlos chama Álvaro de “prefeito das obras inacabadas e mal feitas”, cita intervenções na orla, no Centro, na Pedra do Rosário e no pontilhão de Cidade Nova, além de atacar a execução da engorda de Ponta Negra e a situação do Hospital Municipal, inaugurado, porém sem funcionar. Ao contestar a imagem de gestor que Álvaro tenta apresentar na campanha estadual, ele busca atingir o principal ativo do adversário. Ao mesmo tempo, responde às acusações de que teria deixado Natal estagnada, sobretudo em razão do antigo Plano Diretor.
A virulência desse confronto, portanto, nasce da convergência entre cálculo eleitoral e ressentimento pessoal. Carlos tem interesse em fragilizar Álvaro para favorecer Allyson, mas sua disposição para o embate vem de uma ferida anterior à eleição de 2026.
Na perspectiva que apresenta, ele fez de Álvaro vice, entregou-lhe a Prefeitura, ofereceu-lhe projeção em Natal e, como resposta, recebeu hostilidade, o afastamento de sua esposa e o apoio do antigo aliado a outro candidato em 2024. É essa sequência que explica a palavra repetida pelo ex-prefeito: ingratidão. A campanha apenas devolveu ao centro do palco uma ruptura que nunca foi verdadeiramente encerrada.