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Editorial

Avanço que ainda precisa chegar à sala de aula

Confira o editorial desta sexta-feira 7
Redação
07/08/2026 | 08:43

O Rio Grande do Norte tem motivos legítimos para reconhecer como positiva a evolução registrada no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2025. O Estado alcançou os melhores resultados de sua série histórica nas três etapas avaliadas, apresentou a maior alta proporcional do País no ensino médio estadual e, depois de ocupar a última posição em dois levantamentos consecutivos, conseguiu subir lugares no ranking nacional. Sair da lanterna é uma conquista relevante. Transformar esse movimento em aprendizagem efetiva, porém, será um desafio muito maior.

Consideradas conjuntamente as redes pública e privada, a nota potiguar avançou de 5,3 para 5,7 nos anos iniciais do ensino fundamental, de 4,1 para 4,6 nos anos finais e de 3,7 para 4,2 no ensino médio. São resultados inéditos para o Rio Grande do Norte, mas ainda inferiores às médias brasileiras, respectivamente de 6,3, 5,3 e 4,5. A distância nacional permanece em todas as etapas e é especialmente preocupante nos anos finais do ensino fundamental, um dos principais gargalos da educação potiguar.

assembleia pne sala de aula foto josé aldenir
Estado apresentou a maior alta proporcional do País no ensino médio estadual - Foto: José Aldenir / Agora RN

O resultado de maior repercussão veio do ensino médio da rede estadual. Considerando também a educação profissional integrada, o Ideb passou de 3,2, em 2023, para 4,0, em 2025. A alta de 0,8 ponto, ou 25%, colocou o Rio Grande do Norte no mesmo nível de Acre e Rondônia e acima de outras oito unidades da Federação. Ainda assim, a nota permaneceu abaixo da média de 4,3 alcançada pelas redes estaduais brasileiras. Quando o recorte considera apenas o ensino médio regular, o índice potiguar cai para 3,9.

Esses números devem ser comemorados na proporção exata do que representam. O Ideb é um indicador importante, mas não pode ser interpretado como se medisse exclusivamente aquilo que os alunos aprenderam. Seu cálculo combina o desempenho em língua portuguesa e matemática no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) com o fluxo escolar, influenciado principalmente pelas taxas de aprovação. Uma rede pode elevar sua nota porque os estudantes passaram a dominar mais conteúdos, porque houve menos reprovações ou por uma combinação dos dois fatores.

No caso potiguar, a melhora expressiva do ensino médio decorreu em grande medida do fluxo. A taxa de aprovação da rede estadual saltou de aproximadamente 77% para 93%, uma das maiores altas do País. No mesmo intervalo, o desempenho dos estudantes avançou muito pouco. A média de matemática passou de 253,69 para 254,60 pontos, enquanto a de língua portuguesa subiu de 257,71 para 260,73. A diferença entre os dois movimentos é clara: a escola passou a aprovar muito mais, mas ainda não conseguiu elevar a aprendizagem na mesma proporção.

Isso não significa que reduzir a reprovação seja um erro. A repetência excessiva produz distorção entre idade e série, aumenta o desestímulo, favorece a evasão e pode afastar definitivamente adolescentes da escola. Manter os jovens matriculados e permitir que concluam sua trajetória no tempo adequado também é uma responsabilidade do poder público. O problema aparece quando a progressão não vem acompanhada de mecanismos suficientemente eficazes para recuperar as defasagens acumuladas.

É nesse contexto que deve ser examinada a progressão parcial, pela qual estudantes podem avançar de série com pendências em até seis componentes curriculares. A Secretaria Estadual da Educação nega que a política tenha inflado artificialmente o Ideb e sustenta que seu impacto foi reduzido: 377 estudantes ficaram pendentes em seis disciplinas e 520 em cinco, o equivalente a apenas 0,35% dos concluintes.

Os dados apresentados pelo Governo afastam conclusões simplistas, mas não eliminam a necessidade de acompanhamento. O ponto central não está apenas em saber quantos estudantes foram beneficiados pela progressão parcial. É necessário verificar se as pendências são efetivamente superadas, se as disciplinas são cursadas posteriormente e se a rede oferece condições pedagógicas para que o aluno acompanhe o novo ano enquanto recupera conteúdos anteriores. Aprovar sem assegurar esse suporte apenas transfere a dificuldade para a etapa seguinte.

O Governo atribui a melhora à recomposição da aprendizagem, ao acompanhamento das escolas, à expansão do ensino integral e profissional, aos investimentos em tecnologia e às obras de infraestrutura. Há dados relevantes nessa direção: dos aproximadamente 108 mil estudantes do ensino médio estadual, mais de 34 mil frequentam 248 escolas de tempo integral, enquanto cerca de 25 mil estão na educação profissional oferecida por 144 unidades. São políticas que podem produzir resultados consistentes, desde que tenham continuidade, avaliação e foco pedagógico.

O novo Ideb não deve ser diminuído, mas tampouco pode servir para encobrir a dimensão do trabalho ainda necessário. O Rio Grande do Norte avançou, saiu da última posição e alcançou um recorde. Agora precisa fazer com que essa melhora chegue de maneira mais intensa à leitura, à escrita, à interpretação e à matemática. A próxima vitória não será apenas aprovar mais estudantes ou subir no ranking. Será garantir que os jovens deixem a escola com o conhecimento que têm direito de receber.