A exclusão do pescado brasileiro da nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos oferece à indústria pesqueira do Rio Grande do Norte a perspectiva de superar a fase mais crítica de uma crise que ameaçou empresas, empregos e comunidades inteiras. O alívio, porém, não apaga os prejuízos acumulados nem autoriza o setor a simplesmente retomar a estratégia anterior. A recuperação de uma atividade tão relevante para a economia potiguar dependerá agora de planejamento, articulação diplomática, investimentos e, principalmente, diversificação dos mercados consumidores.
Durante anos, a pesca industrial do Estado estruturou-se para abastecer restaurantes norte-americanos especializados em culinária japonesa, com atum de alta qualidade destinado ao consumo in natura. Essa especialização abriu um mercado valioso e garantiu competitividade ao produto potiguar, mas também criou uma dependência perigosa. Diferentemente de mercadorias das quais os Estados Unidos necessitam em grande escala, o pescado brasileiro pode ser substituído por fornecedores de outros países. Quando a relação diplomática se deteriora, empresas e trabalhadores locais ficam expostos a decisões tomadas fora de seu alcance.

A ameaça do tarifaço demonstrou essa vulnerabilidade. Mesmo retirado da lista final, o pescado já havia sofrido os efeitos da insegurança comercial, com redução de faturamento entre 40% e 60% em algumas empresas no primeiro semestre e paralisação de outras operações. A exclusão foi resultado de uma articulação envolvendo a indústria, entidades empresariais e compradores norte-americanos, prova de que a mobilização institucional produz resultados. Ainda assim, permanece em discussão outra sobretaxa de 12,5%, relacionada a alegações sobre trabalho forçado nas cadeias produtivas. O cenário reforça que o setor não pode permanecer sujeito ao humor político de uma única potência.
A prioridade deve ser recuperar o mercado europeu, fechado ao pescado brasileiro desde 2018. Empresas do Rio Grande do Norte passaram recentemente por auditorias de inspetores da União Europeia e aguardam a conclusão das avaliações. Uma eventual reabertura, combinada com o acordo entre Mercosul e União Europeia, poderá eliminar tarifas de importação que hoje variam entre 14% e 17% para algumas categorias. Seria uma oportunidade concreta de reativar investimentos, ampliar a produção e reduzir a excessiva dependência dos Estados Unidos.
O avanço obtido no mercado chinês também precisa ser aproveitado. A autorização para a entrada de praticamente todas as espécies da pesca extrativa brasileira abre uma frente promissora, mas acessar um país de dimensões continentais exige escala, regularidade, logística eficiente e capacidade de negociação. Não basta conquistar a permissão sanitária. É necessário transformar essa abertura em contratos, rotas comerciais e relações duradouras com importadores.
A reconstrução externa, entretanto, será insuficiente se os obstáculos internos permanecerem. A paralisação da coleta de ovas de peixe-voador, por falta de ordenamento específico, teria retirado aproximadamente R$ 20 milhões da economia de Caiçara do Norte, Macau e Porto do Mangue. Preservar os recursos naturais é indispensável, mas a ausência prolongada de regras também produz danos sociais. Governo, órgãos ambientais, pesquisadores e pescadores precisam construir normas que conciliem sustentabilidade, fiscalização e sobrevivência econômica.
O Estado também perdeu competitividade diante de entraves ao licenciamento e da falta de estímulos à modernização. O Rio Grande do Norte, que já liderou a produção brasileira de lagosta, hoje produz apenas uma fração do volume alcançado pelo Ceará. O contraste não decorre da falta de litoral ou de tradição pesqueira, mas da ausência de uma estratégia capaz de integrar licenciamento responsável, renovação da frota, segurança jurídica, financiamento e infraestrutura.
O Terminal Pesqueiro de Natal simboliza esse desperdício. Construído há cerca de duas décadas, o equipamento ainda não opera plenamente, enquanto empresas enfrentam dificuldades para ampliar sua capacidade. Não é possível falar seriamente em recuperação da pesca sem concluir estruturas essenciais, melhorar a cadeia de frio, organizar o desembarque e oferecer condições adequadas ao beneficiamento e à exportação.
Também cabe combater a desinformação que prejudica o consumo. O surto de ciguatera exige atenção das autoridades, mas não pode gerar uma condenação indiscriminada de todo o pescado. A toxina está associada principalmente a espécies de ambientes recifais, não ao atum capturado em alto-mar pela indústria exportadora. Informação técnica, rastreabilidade e aquisição em estabelecimentos fiscalizados são as respostas corretas para proteger o consumidor sem destruir a confiança no setor.
A pesca precisa ser tratada dentro de uma política mais ampla para a economia do mar. O Rio Grande do Norte reúne condições privilegiadas para integrar pesca, aquicultura, turismo, produção de sal, energia offshore, transporte marítimo e pesquisa científica. Falta converter essas vantagens em planejamento de longo prazo, com metas, investimentos e coordenação entre os governos e a iniciativa privada.
O alívio tarifário deve ser encarado como uma oportunidade de reorganização, não como autorização para retornar à antiga dependência. Antes das crises recentes, apenas a indústria do atum empregava cerca de 1,5 mil trabalhadores diretos, além dos milhares de potiguares vinculados à pesca artesanal. Preservar essa cadeia exige olhar além da próxima exportação e pensar o litoral para as próximas décadas. O futuro da pesca potiguar será mais seguro quando seu destino não depender de uma única rota comercial.