BUSCAR
BUSCAR
Editorial

Tal pai, tal filho

Confira o editorial do Agora RN desta quarta-feira 22
Editorial
22/07/2026 | 05:33

Flávio Bolsonaro parece decidido a repetir não apenas o discurso político do pai, mas também os métodos que levaram Jair Bolsonaro a confrontar as instituições e a transformar desconfianças sem fundamento em instrumento de mobilização eleitoral. Nesta terça-feira 21, o senador e candidato do PL à Presidência da República levou a uma reunião com diplomatas e embaixadores informações falsas sobre as urnas eletrônicas brasileiras. A cena não poderia ser mais familiar.

Diante de representantes estrangeiros reunidos em Brasília, Flávio relacionou as urnas usadas no Brasil à empresa venezuelana Smartmatic. Para sustentar a insinuação, mencionou um relatório divulgado pela CIA sobre suspeitas de participação da companhia em um plano do governo venezuelano para fraudar as eleições de 2012. Segundo o documento citado pelo senador, a intenção seria alterar votos por meio de equipamentos previamente programados.

Flávio Bolsonaro foto Pedro França Senado
Tal pai, tal filho - Foto: Pedro França/Senado

O problema é que a associação feita por Flávio não corresponde à realidade brasileira. A Smartmatic nunca vendeu ao Brasil as urnas eletrônicas utilizadas nas eleições, tampouco desenvolveu os programas responsáveis pelo funcionamento dos equipamentos. A empresa já prestou ao Tribunal Superior Eleitoral serviços de conexão de dados e voz, além de ter atuado no treinamento de pessoal para suporte técnico e operacional. Também participou de uma licitação para fabricar urnas em 2020, mas perdeu a disputa para a Positivo.

Essas informações não são novas. O boato sobre a suposta origem venezuelana das urnas brasileiras circula há anos e foi formalmente desmentido pela Justiça Eleitoral ainda em 2020. Flávio, portanto, não apresentou uma descoberta nem revelou um fato desconhecido. Apenas ressuscitou uma narrativa falsa, acrescentando a ela um documento recente que trata de outro país, de outro processo eleitoral e de equipamentos que não são utilizados no Brasil.

A estratégia reproduz com notável fidelidade o roteiro político de Jair Bolsonaro. Em julho de 2022, quando ocupava a Presidência da República e disputava a reeleição, Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para atacar o sistema eleitoral. Na ocasião, utilizou a estrutura do Estado e o peso do cargo para apresentar suspeitas já desmentidas como se fossem dúvidas legítimas. O episódio contribuiu para que ele fosse declarado inelegível.

Agora, quatro anos depois, Flávio escolhe praticamente o mesmo público, os mesmos alvos e uma retórica semelhante. O candidato afirma não estar questionando o sistema de votação, mas, ao mesmo tempo, sugere a existência de uma conexão entre as urnas brasileiras e uma empresa acusada de envolvimento em fraude na Venezuela. Em seguida, pede que os países enviem o maior número possível de observadores e especialistas em tecnologia para acompanhar as eleições de 2026.

É uma contradição apenas aparente. A frase “não estou questionando” funciona como uma proteção retórica para o questionamento que vem imediatamente antes ou depois. Se não há dúvida baseada em fatos sobre a origem, o funcionamento e a segurança dos equipamentos, por qual motivo apresentar aos representantes estrangeiros uma associação falsa? E por que vincular o sistema brasileiro a suspeitas envolvendo o regime venezuelano?

A fiscalização das eleições é legítima e necessária. Missões internacionais de observação podem contribuir para a transparência, fortalecer a confiança pública e oferecer uma análise independente dos procedimentos adotados pelo País. O problema não está em pedir observadores, mas em utilizar uma falsidade como justificativa para sugerir que o Brasil necessita de uma vigilância excepcional.

O método é conhecido: lança-se a suspeita, evita-se uma acusação inteiramente explícita e, quando confrontado, afirma-se que houve apenas uma defesa da transparência. Foi assim que Jair Bolsonaro construiu durante anos uma ofensiva contra as urnas sem jamais apresentar provas de fraude. Flávio tenta agora reabilitar essa narrativa sob uma embalagem ligeiramente diferente, aproveitando uma acusação referente à Venezuela para contaminar o debate brasileiro.

A própria explicação dada pelo senador sobre a inelegibilidade do pai revela a continuidade da estratégia. Segundo Flávio, Bolsonaro foi punido por manifestar “uma preocupação com a transparência e a segurança” do sistema eleitoral. A afirmação omite o contexto e reduz uma campanha sistemática contra a credibilidade das eleições a uma manifestação inocente de cautela.

Transparência, porém, exige compromisso com fatos. Uma autoridade pode propor auditorias, defender aperfeiçoamentos e solicitar observadores. O que não deve fazer é apresentar como verdadeira uma ligação inexistente entre as urnas brasileiras e uma empresa estrangeira, especialmente diante de diplomatas que podem não conhecer os detalhes técnicos e institucionais do sistema nacional.

O episódio também serve como advertência sobre o caminho escolhido para a campanha presidencial. Em vez de romper com os erros que conduziram o bolsonarismo ao confronto permanente com as instituições, Flávio parece disposto a transformá-los novamente em plataforma eleitoral. A desconfiança nas urnas volta a ser acionada antes mesmo da votação, como uma espécie de seguro político: se o resultado for favorável, o sistema funcionou; se for desfavorável, a suspeita já estará plantada.

Flávio Bolsonaro pretende apresentar-se como alternativa para governar o Brasil, mas age como herdeiro de uma estratégia que produziu instabilidade, desinformação e graves ataques à democracia. Ao repetir o pai, corre o risco de repetir também suas consequências. Tal pai, tal filho.