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Editorial

Um novo fôlego para o Alecrim

Confira o editorial do Agora RN desta quinta-feira 23
Redação
23/07/2026 | 06:30

O Alecrim chega ao segundo semestre de 2026 diante da possibilidade de iniciar uma transformação importante em sua dinâmica econômica. Conhecido historicamente pela concentração de lojas, serviços e circulação intensa durante o dia, o principal polo de comércio popular do Rio Grande do Norte começa a reunir condições para prolongar sua atividade além do horário tradicional. A chegada de grandes redes de academias, com funcionamento previsto até o fim da noite, poderá oferecer ao bairro um novo fôlego e ajudar a torná-lo mais competitivo diante dos shopping centers e das mudanças no comportamento do consumidor.

Os números já demonstram a dimensão econômica do Alecrim. O bairro reúne atualmente 6.055 empresas ativas, volume 46,7% superior ao registrado em 2022, de acordo com levantamento da Fecomércio-RN apresentado pela Associação dos Empresários do Bairro do Alecrim (Aeba). O crescimento médio anual de 10,1% revela que, apesar da expansão do comércio eletrônico, da concorrência dos centros comerciais fechados e das dificuldades tributárias, o comércio de rua continua capaz de atrair investimentos.

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Um novo fôlego para o Alecrim - Foto: José Aldenir/Agora RN

O Alecrim recebe mais de 3 milhões de pessoas por mês, possui população superior a 30 mil habitantes e concentra uma massa salarial anual estimada entre R$ 480 milhões e R$ 650 milhões. Também abriga cerca de 30 mil empregos diretos e combina empresas formais, ambulantes, camelôs, feirantes e pequenos empreendedores. O setor de serviços representa 44% dos negócios instalados, enquanto o comércio responde por 43,5%. Trata-se, portanto, de um ecossistema cuja relevância ultrapassa os limites do bairro e influencia diretamente a economia de Natal.

A chegada de unidades da Smart Fit, Selfit e Skyfit poderá ampliar essa força ao introduzir uma atividade com horários diferentes dos praticados pelas lojas tradicionais. Academias costumam abrir nas primeiras horas do dia e funcionar até por volta das 23h. Isso significa atrair consumidores quando boa parte dos estabelecimentos já encerrou o expediente, estimulando restaurantes, lanchonetes, estacionamentos, farmácias, transporte e outros serviços a permanecerem ativos por mais tempo.

Essa ocupação noturna pode ajudar o Alecrim a enfrentar uma das vantagens competitivas dos shopping centers: a capacidade de oferecer compras, alimentação, lazer, serviços, estacionamento e segurança durante um intervalo mais extenso. O bairro não precisa reproduzir o modelo dos shoppings, nem perder sua identidade popular. Precisa, porém, aproveitar sua diversidade comercial para construir uma experiência urbana mais confortável, segura e conveniente.

O comércio físico continua tendo atributos que as plataformas digitais não conseguem substituir integralmente. Muitas pessoas desejam observar o produto, comparar preços, conversar com vendedores, encontrar conhecidos e transformar a compra em uma atividade de convivência. O desafio está em oferecer condições para que essa experiência também seja possível no período noturno, quando parte dos consumidores dispõe de mais tempo.

Uma operação prolongada ainda produz um benefício urbano relevante: ruas ocupadas tendem a transmitir maior sensação de segurança. Mais estabelecimentos abertos significam iluminação, circulação de trabalhadores, presença de clientes e utilização contínua dos espaços públicos. Isso não dispensa o policiamento nem transfere ao setor privado uma responsabilidade do poder público, mas reduz o esvaziamento que normalmente ocorre depois do fechamento das lojas.

O movimento precisa ser acompanhado por planejamento. A expansão do horário exigirá atenção à iluminação pública, segurança, transporte coletivo, limpeza urbana, ordenamento do trânsito, acessibilidade e oferta de estacionamento. Não basta inaugurar academias e esperar que uma economia noturna surja espontaneamente. É necessário criar condições para que trabalhadores e consumidores possam chegar e sair do bairro com segurança.

Alguns avanços recentes ajudam nesse processo. A conclusão da drenagem da Avenida Presidente Sarmento reduziu os alagamentos que historicamente prejudicavam comerciantes e consumidores. Também foram registrados investimentos em centros comerciais, estacionamentos, energia solar, equipamentos públicos e infraestrutura. São melhorias que precisam continuar e alcançar outras áreas do bairro.

As próprias empresas terão de avaliar a conveniência de ampliar horários e reorganizar jornadas, especialmente diante das discussões sobre mudanças na escala 6×1. Uma operação noturna sustentável não pode depender da sobrecarga dos trabalhadores. Ela deverá combinar geração de empregos, organização de turnos, viabilidade financeira e respeito às condições de trabalho.

O Alecrim já demonstrou capacidade de adaptação ao longo de sua história. Agora, a perspectiva de movimentação noturna abre uma nova etapa. Se houver coordenação entre empresários, entidades representativas e poder público, o bairro poderá ampliar vendas, gerar empregos, ocupar melhor seus espaços e fortalecer sua posição diante dos shopping centers. Mais do que estender o horário de funcionamento, trata-se de devolver vida ao Alecrim depois que o comércio diurno fecha as portas.