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Editorial

Data centers: a nova fronteira que o RN não pode perder

Confira o editorial do Agora RN desta terça-feira 21
Redação
21/07/2026 | 05:44

O Rio Grande do Norte está diante de uma oportunidade concreta de abrir uma nova fronteira de desenvolvimento. A expansão da inteligência artificial, da computação em nuvem e dos serviços digitais multiplicou a demanda mundial por data centers, estruturas que concentram equipamentos destinados ao armazenamento e ao processamento de dados. Por reunir energia renovável em abundância, localização geográfica privilegiada e possibilidade de conexão internacional, o Estado possui condições para disputar investimentos bilionários nesse mercado. Mas vantagens naturais, isoladamente, não asseguram projetos. É preciso transformar potencial em competitividade.

Um estudo da Fundação Getúlio Vargas dimensiona o impacto dessa indústria. A instalação de um único data center com capacidade de 100 megawatts pode exigir R$ 25 bilhões em investimentos, acrescentar R$ 1,5 bilhão ao Produto Interno Bruto e gerar R$ 590 milhões em renda do trabalho.

Data center
Data centers: a nova fronteira que o RN não pode perder - Foto: Magnific

Os efeitos, portanto, ultrapassam os limites do setor tecnológico. Um empreendimento dessa dimensão movimenta fornecedores, estimula a qualificação profissional, atrai empresas especializadas e cria demanda por transporte, alimentação, manutenção e serviços diversos. Também favorece a formação de um ecossistema no qual outras empresas de tecnologia podem se instalar. Um data center dificilmente chega sozinho: ao redor dele surgem negócios relacionados à inteligência artificial, ao mercado financeiro, à segurança digital e ao processamento de alto desempenho.

O RN possui uma vantagem especialmente importante: produz mais energia renovável do que consegue aproveitar plenamente. Os cortes determinados quando a geração supera a demanda ou a capacidade de transmissão, conhecidos como curtailments, causam prejuízos bilionários ao setor e ameaçam novos investimentos. Data centers são consumidores intensivos e permanentes de eletricidade. Sua instalação permitiria usar no próprio território parte da energia hoje desperdiçada, criando um novo mercado para os parques eólicos e solares.

A combinação é promissora. De um lado, empresas digitais precisam de energia confiável, competitiva e, cada vez mais, proveniente de fontes limpas. Do outro, o Rio Grande do Norte necessita ampliar o consumo local para sustentar a expansão de uma das atividades mais importantes de sua economia.

A localização potiguar também representa um ativo. A proximidade com a Europa, a África e a costa leste dos Estados Unidos reduz distâncias e favorece conexões de baixa latência. Para aproveitar essa condição, o governo negocia a implantação de um cabo submarino de transmissão de dados, com zonas de atracação projetadas para Natal e Areia Branca. Outros 11 pontos do litoral já foram mapeados. A estrutura ajudaria a reduzir a concentração atualmente existente no Ceará, por onde passa a maior parte do tráfego internacional de dados do País, e criaria uma conexão entre as regiões Leste e Oeste do RN.

Essa infraestrutura é fundamental para atrair data centers e acelerar a digitalização da indústria potiguar, ainda limitada. Soma-se a ela a previsão de instalação de um supercomputador no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba, com investimento estimado em R$ 1,8 bilhão.

Há, evidentemente, desafios. Data centers consomem grandes volumes de energia e podem demandar água para refrigeração. Em um Estado que ainda convive com insegurança hídrica, essa questão precisa ser tratada com transparência, planejamento e regras rigorosas. Não se trata, porém, de um obstáculo incontornável. Projetos modernos adotados em outras partes do mundo utilizam circuitos fechados, sistemas de refrigeração mais eficientes e água de reúso, reduzindo consideravelmente o consumo de água potável. A autorização de cada empreendimento deve considerar a tecnologia empregada, a disponibilidade local e a segurança do abastecimento humano.

O problema mais imediato é regulatório. Atualmente, o RN não possui normas ambientais específicas para receber pedidos de licenciamento de data centers. Enquanto esse processo não for concluído, o Estado nem sequer consegue participar plenamente da disputa. Outros concorrentes já avançaram. O Ceará, por exemplo, aprovou uma política de incentivo aos data centers e aos sistemas de armazenamento de energia, oferecendo maior previsibilidade aos investidores.

Também merece apoio a iniciativa do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia e do Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis de elaborar um estudo locacional. O mapeamento poderá identificar as áreas mais adequadas considerando energia, clima, conectividade, manutenção, mão de obra e proximidade dos mercados consumidores.

O Governo do Estado acerta ao tratar o assunto como prioridade, buscar a regulamentação e manter diálogo com empresas. Mas é necessário avançar com mais velocidade, agressividade institucional e coordenação. Isso significa concluir as normas ambientais, viabilizar o cabo submarino, qualificar trabalhadores, estruturar incentivos responsáveis e apresentar o RN diretamente às grandes companhias do setor.

O Rio Grande do Norte já ficou para trás em outras disputas por investimentos porque demorou a organizar suas vantagens e oferecer segurança aos empreendedores. Não pode repetir o erro. A economia digital está escolhendo agora os territórios onde concentrará bilhões de reais nas próximas décadas. O Estado dispõe de energia, posição geográfica e conhecimento técnico. Falta agir com a urgência exigida por uma oportunidade que não permanecerá aberta indefinidamente.