Durante décadas, a revitalização do Centro Histórico de Natal tornou-se um daqueles temas recorrentes da vida pública potiguar. Trata-se de uma agenda que atravessa sucessivas administrações municipais e estaduais. Mas, mudam os governos, renovam-se as gestões municipais e estaduais, sucedem-se audiências, seminários, planos e anúncios, e a Ribeira e a Cidade Alta continuam convivendo com imóveis fechados, comércio reduzido, pouca circulação de pessoas e um patrimônio histórico subutilizado. Não faltaram boas intenções. O que sempre faltou foram ações concretas capazes de modificar a dinâmica cotidiana da região.
Por isso, merece reconhecimento a decisão da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte de transferir parte de sua estrutura administrativa para o novo Edifício Deputado Moacyr Torres Duarte, instalado no antigo prédio do Banco do Nordeste, na Cidade Alta. O edifício moderno vai acomodar setores como a TV Assembleia, a Rádio Assembleia FM, a Diretoria de Gestão Tecnológica e Inovação e a Controladoria. Com a iniciativa, o Parlamento estadual toma uma decisão com potencial de produzir efeitos que ultrapassam seus próprios interesses administrativos.

Ao instalar servidores, colaboradores e visitantes em um dos principais corredores do Centro Histórico, a Assembleia ajuda a devolver movimento a uma área que há muitos anos perdeu protagonismo econômico e urbano. Pessoas circulando significam demanda por restaurantes, cafeterias, estacionamentos, farmácias, papelarias e diversos outros serviços.
A iniciativa ganha ainda mais relevância porque não acontece de forma isolada. Poucos dias atrás, o Governo do Estado inaugurou uma nova Central do Cidadão na Ribeira, em um prédio reformado com investimento superior a R$ 680 mil. A unidade reúne diversos serviços públicos estaduais, atraindo diariamente centenas de pessoas ao bairro.
São duas iniciativas independentes, conduzidas por instituições diferentes, mas que caminham na mesma direção: recolocar o poder público dentro do Centro Histórico, fazendo com que a população volte a frequentar uma região que, durante décadas, foi o coração administrativo, comercial e cultural de Natal.
É importante lembrar o significado histórico dessa área para a capital potiguar. Ribeira e Cidade Alta foram, por muito tempo, o principal centro financeiro, político e comercial da cidade. Ali se concentravam bancos, repartições públicas, lojas, hotéis, cinemas, teatros e boa parte da vida social natalense. Com o crescimento urbano em direção às zonas Sul e Leste, porém, o centro perdeu população, investimentos e atividade econômica, acumulando imóveis vazios, degradação física e insegurança.
Reverter esse processo nunca seria tarefa simples. Tampouco ocorrerá apenas com a abertura de um prédio público ou outro. Mas é preciso reconhecer quando se deixa o discurso e se passa à prática.
É verdade que, ao longo dos últimos anos, diferentes administrações municipais lançaram iniciativas importantes, como programas de incentivos fiscais, redução de tributos e estímulos para ocupação de imóveis históricos. Algumas dessas medidas, inclusive, contribuíram para viabilizar empreendimentos residenciais na Ribeira. Ainda assim, os resultados permaneceram limitados diante da dimensão do desafio, evidenciando que incentivos isolados não bastam para devolver vitalidade ao Centro Histórico.
Essa lógica, aliás, também aparece na nova proposta apresentada pela Prefeitura do Natal para estruturar uma Parceria Público-Privada voltada à requalificação da Ribeira. A atual gestão volta a colocar o tema entre suas prioridades e inicia agora a fase de estudos de um projeto que, se efetivamente sair do papel, poderá representar outro passo importante para a recuperação da região.
O projeto prevê uma intervenção integrada baseada em quatro eixos: instalação de órgãos públicos, recuperação do patrimônio histórico, fortalecimento de um polo de inovação e tecnologia e incentivo à construção de moradias. A ideia é justamente criar condições para que o bairro volte a reunir pessoas trabalhando, morando, empreendendo e circulando diariamente.
Especialistas, representantes do setor produtivo e gestores públicos convergem em um ponto essencial: não haverá revitalização sem ocupação permanente. Não basta restaurar fachadas. É necessário criar condições para que pessoas vivam, trabalhem e consumam naquela região.
Nesse contexto, levar repartições públicas para o Centro Histórico talvez seja o primeiro movimento mais lógico de todos. O Estado e o município possuem capacidade de induzir transformações urbanas exatamente porque conseguem gerar um fluxo permanente de cidadãos.
Naturalmente, ninguém deve imaginar que essas duas inaugurações resolverão décadas de abandono. Não resolverão. O desafio permanece enorme. A degradação física, a insegurança, os problemas de mobilidade, os imóveis em litígio, a burocracia envolvendo patrimônio histórico e a falta de moradores continuam sendo obstáculos relevantes.
Mas também seria injusto minimizar a importância dos passos que começam a ser dados. Depois de tantos anos ouvindo apenas promessas de revitalização, finalmente há iniciativas concretas acontecendo. Elas ainda são insuficientes, porém caminham na direção correta.
Que não parem por aqui. A presença da Assembleia Legislativa e da Central do Cidadão deve ser apenas o começo de uma estratégia mais ampla e permanente de reocupação do Centro Histórico. O poder público precisa continuar exercendo seu papel de indutor desse processo, levando novos serviços, investindo em infraestrutura, preservando o patrimônio histórico e criando incentivos para que moradores, comerciantes e empreendedores voltem a enxergar a Ribeira e a Cidade Alta como espaços viáveis para viver, trabalhar e investir.
Revitalizar um centro histórico nunca depende de uma única obra.