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Conexão Saúde

Experiência quase-morte desafia ciência e amplia debate na UFRN

Psiquiatra Francisco Rodrigues e filósofo Sérgio Della Savia defendem que experiências recordadas de morte merecem investigação científica e acolhimento na prática clínica, sem confusão entre espiritualidade, religião e transtornos mentais
Redação
14/07/2026 | 05:51

A relação entre ciência, psiquiatria, filosofia e espiritualidade esteve no centro do mais recente episódio do podcast Conexão Saúde, da TV Agora RN (YouTube). O médico psiquiatra Francisco Rodrigues, professor do curso de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e o filósofo Sérgio Della Savia, docente do Departamento de Filosofia da instituição, discutiram as chamadas experiências de quase-morte (EQM), tema que vem despertando crescente interesse da comunidade científica internacional e provocando debates sobre os limites das explicações exclusivamente biológicas para determinados fenômenos da consciência.

Para os professores, o fenômeno exige uma abordagem multidisciplinar que reúna medicina, neurociência, filosofia, psicologia e estudos sobre espiritualidade. Francisco Rodrigues explicou que a proposta da disciplina “Medicina, Saúde e Espiritualidade”, ministrada no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL/UFRN), é justamente ampliar o olhar dos futuros médicos diante de experiências frequentemente relatadas por pacientes, mas que nem sempre encontram espaço na formação tradicional. “Estamos discutindo a espiritualidade dentro da universidade, com rigor científico. Nós não temos como palpar essa espiritualidade, mas temos que observar os fatos que ocorrem ao nosso redor”, afirmou.

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Professores doutores Sérgio Della Savia e Franciscio Rodrigues no podcast - Foto: Divulgação

Segundo o psiquiatra, a prática clínica mostra que nem toda manifestação incomum observada durante o atendimento pode ser automaticamente classificada como sintoma psiquiátrico. “Temos que saber diferenciar o que está dentro da mente causando o distúrbio ou alguma coisa que vem de fora que pode estar alterando aquele psiquismo daquela pessoa”, disse.

Um dos primeiros pontos debatidos foi a distinção entre espiritualidade e religião, frequentemente tratadas como sinônimos no senso comum. Sérgio Della Savia explicou que o espiritualismo possui longa tradição filosófica e não depende necessariamente de crenças religiosas. “O espiritualismo é uma abordagem que, em filosofia, se refere àquilo que extrapola o princípio materialista. Não é necessária, diretamente, uma relação com a religião ou as religiões”, afirmou. Segundo ele, a filosofia da religião analisa crenças, dogmas e concepções sobre Deus ou transcendência, enquanto o espiritualismo investiga a possibilidade de existirem aspectos da realidade que não possam ser plenamente explicados apenas por processos materiais. Ao abordar as EQMs, Della Savia fez uma retrospectiva histórica dos estudos científicos sobre o tema. Ele lembrou que os primeiros relatos conhecidos remontam ao século XVIII, mas que a pesquisa ganhou impulso a partir de 1975 com a publicação do livro Vida Depois da Vida, do psiquiatra e filósofo americano Raymond Moody.

Moody reuniu cerca de dois mil relatos de pacientes reanimados após morte clínica e identificou padrões recorrentes entre pessoas que jamais tiveram contato entre si. Segundo Della Savia, atualmente existem três grandes correntes na comunidade científica. Uma delas considera o fenômeno irrelevante para a ciência; outra procura explicá-lo exclusivamente pela atividade cerebral; e uma terceira sustenta que as hipóteses materialistas não conseguem responder integralmente às evidências observadas. “A comunidade científica hoje está dividida exatamente sobre isso”, afirmou. Ele também destacou pesquisas conduzidas desde 2014 pelo médico Sam Parnia, da Universidade de Southampton, no Reino Unido, que monitoram pacientes submetidos à reanimação cardiopulmonar. Segundo o doutor em filosofia, esses estudos prospectivos passaram a registrar simultaneamente atividade cerebral, oxigenação e relatos posteriores dos pacientes.

Della Savia defendeu inclusive uma mudança na terminologia utilizada para descrever o fenômeno. Segundo ele, o termo “experiência de quase-morte” é inadequado porque muitos pacientes estavam efetivamente mortos do ponto de vista clínico antes de serem reanimados. Por isso, pesquisadores da área passaram a adotar a expressão “experiência recordada de morte”. “A morte precisa ser entendida como um processo. Em algum momento desse processo, a pessoa pode retornar”, explicou.

Ele acrescentou que esses relatos não constituem prova definitiva da existência de vida após a morte, mas podem representar evidências de uma dissociação entre cérebro e consciência. “O cérebro estando inativo, a gente não consegue explicar como a pessoa percebe alguma coisa, retém uma memória e relata depois”, afirmou. Francisco Rodrigues destacou médicos precisam estar preparados para distinguir experiências espirituais de transtornos mentais propriamente ditos. “O colega pode encontrar um paciente que tenha necessidade de ser visto também pelo lado espiritual. Posso controlar os sintomas com antipsicóticos, mas quando o efeito passa eles voltam exatamente como antes”, afirmou. Ao mesmo tempo, fez uma ressalva sobre o extremo oposto.

Segundo Rodrigues, instituições religiosas também precisam reconhecer quando um paciente necessita de atendimento médico especializado. “A gente tem que saber o que é um lado e o que é o outro e agir de forma técnica para beneficiar o paciente”, afirmou. Outro aspecto abordado pelos pesquisadores diz respeito às consequências psicológicas relatadas por pessoas que passaram por experiências de morte clínica.

Segundo Della Savia, um padrão recorrente observado em estudos internacionais é a profunda mudança na forma como esses indivíduos enxergam a própria vida. “Muitas pessoas ficam com dificuldade de levar a vida que levavam normalmente porque ocorre uma redefinição de valores e objetivos”, afirmou. Para ele, profissionais de saúde devem acolher esses pacientes sem classificá-los automaticamente como portadores de delírios ou alucinações. “É preciso entender que isso é um fenômeno. A pessoa deve ser respeitada no seu testemunho”, disse.

Na avaliação de Della Savia, a principal barreira ao avanço das pesquisas continua sendo a predominância de uma visão estritamente materialista na ciência contemporânea. “Enquanto persistir essa orientação dogmática de que tudo só pode ser explicado com base na matéria orgânica, não vamos avançar na compreensão desse tipo de fenômeno”, afirmou.

Segundo ele, a filosofia pode desempenhar papel central na discussão, justamente por tratar historicamente das relações entre mente, consciência, corpo e alma. “A discussão sobre essas experiências não será resolvida apenas no campo da medicina. Ela passa necessariamente pela filosofia”, afirmou. Durante o podcast, Francisco Rodrigues informou que a disciplina “Medicina, Saúde e Espiritualidade”, desenvolvida na UFRN, reúne atualmente cerca de 50 estudantes matriculados e permanece aberta à participação de interessados como ouvintes. As aulas acontecem às quartas-feiras, às 17h, no Hospital Universitário Onofre Lopes.

Sérgio Della Savia informou que prepara um livro sobre experiências recordadas de morte, reunindo estudos filosóficos e referências científicas internacionais sobre o tema. Para ambos, o objetivo é ampliar o debate acadêmico e estimular novas pesquisas sobre um fenômeno que, embora ainda desperte divergências, vem conquistando espaço crescente nas discussões envolvendo consciência, saúde mental e espiritualidade.