Os Estados Unidos anunciaram nesta quarta-feira, 22, um acordo de cooperação nuclear civil com a Arábia Saudita que representa um dos movimentos mais relevantes da política externa do governo Donald Trump no Oriente Médio desde o início de seu segundo mandato. O pacto, negociado ao longo dos últimos meses, estabelece a base jurídica para a participação de empresas americanas no programa nuclear saudita e poderá permitir, futuramente, que o reino enriqueça urânio em seu próprio território, mediante condições previstas no acordo.
A Casa Branca estima que a iniciativa movimentará bilhões de dólares para a indústria nuclear dos Estados Unidos, tendo a Westinghouse, tradicional fornecedora de tecnologia para usinas nucleares, como uma das principais beneficiárias. O texto será encaminhado ao Congresso americano, que poderá analisá-lo nos próximos meses, embora especialistas considerem improvável sua rejeição diante das exigências legais para barrar a medida.

O entendimento é estruturado sob o chamado Acordo 123, mecanismo previsto na Lei de Energia Atômica dos Estados Unidos que regula a cooperação nuclear civil com outros países e estabelece compromissos de não proliferação. Atualmente, Washington mantém acordos desse tipo com dezenas de governos e com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). No caso saudita, entretanto, o texto rompe com algumas salvaguardas tradicionalmente exigidas pelos Estados Unidos.
Entre elas está a ausência do chamado “gold standard”, cláusula que impediria o enriquecimento doméstico de urânio e o reprocessamento de combustível irradiado, além da não inclusão do Protocolo Adicional da AIEA, que amplia os poderes de inspeção internacional. Segundo autoridades americanas, qualquer atividade relacionada ao ciclo do combustível dependerá de estudos conjuntos e de futuras autorizações, sem implicar transferência automática de tecnologia sensível.
A negociação ocorre em um momento de elevada tensão regional, marcado pela guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã e pelo avanço do programa nuclear iraniano. Durante anos, a cooperação nuclear entre Washington e Riad esteve condicionada ao reconhecimento diplomático de Israel pela Arábia Saudita, proposta discutida durante o governo Joe Biden. Após os ataques do Hamas em outubro de 2023 e a deterioração do cenário regional, a administração Trump optou por desvincular os dois temas, priorizando o fortalecimento da parceria estratégica com o reino saudita.
O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman já declarou anteriormente que buscará desenvolver armas nucleares caso o Irã obtenha capacidade militar atômica, fator que alimenta preocupações de parlamentares americanos e autoridades israelenses sobre uma possível corrida armamentista no Oriente Médio. Em resposta às críticas, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que os Estados Unidos “não firmarão nenhum acordo com qualquer país do mundo que resulte em risco de proliferação”.
Além da dimensão geopolítica, o acordo possui forte componente econômico e industrial. A administração Trump pretende consolidar empresas americanas como fornecedoras preferenciais do programa nuclear saudita, reduzindo o espaço para concorrentes como China e Rússia em um mercado considerado estratégico para as próximas décadas. O Congresso terá cerca de 90 dias para analisar o texto, período em que parlamentares poderão apresentar resolução de desaprovação.
Embora haja resistência de integrantes dos dois partidos, sobretudo em razão das salvaguardas consideradas mais brandas, a tendência é de aprovação, já que uma eventual rejeição exigiria maioria qualificada suficiente para superar um veto presidencial. O debate, contudo, deverá se concentrar no equilíbrio entre os ganhos econômicos e diplomáticos para Washington e os riscos associados à expansão da capacidade nuclear em uma das regiões mais instáveis do mundo.