A intensificação da guerra entre Estados Unidos e Irã vem expondo fissuras entre os principais aliados árabes de Washington no Golfo Pérsico. Embora compartilhem a preocupação com a expansão do conflito e seus efeitos sobre a segurança regional, governos da região passaram a divergir sobre a estratégia que deveria ser adotada pela administração de Donald Trump.
Enquanto parte das autoridades considera que uma resposta militar mais ampla poderia forçar Teerã a recuar, outro grupo, liderado por países como o Catar, defende a retomada imediata da diplomacia para evitar um conflito prolongado que comprometa o fluxo de petróleo, afaste investimentos estrangeiros e reduza a atividade econômica em uma das regiões mais estratégicas do mundo.

Segundo fontes ouvidas pela Bloomberg, alguns integrantes dos governos do Golfo avaliam que os Estados Unidos deveriam ampliar as operações militares, incluindo o envio de tropas terrestres para áreas do Irã e até uma eventual tomada da Ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo iraniano.
A avaliação desse grupo é que apenas uma demonstração mais contundente de força levaria Teerã a abandonar ataques contra a navegação no Estreito de Ormuz e a fazer concessões em torno de seu programa nuclear. “Algo mais precisa ser feito, porque a dinâmica atual não obrigará o Irã a fazer qualquer concessão”, afirmou David Schenker, ex-diplomata americano para o Oriente Médio e pesquisador do Washington Institute for Near East Policy. Outros governos da região, entretanto, consideram que uma escalada aumentaria os riscos de um conflito regional de maiores proporções e ampliaria a instabilidade econômica.
A divisão representa uma mudança em relação aos meses anteriores, quando as monarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) atuavam de forma relativamente coordenada para incentivar Washington a buscar uma solução diplomática com Teerã. O agravamento das hostilidades nas últimas semanas, contudo, alterou esse cenário. Kuwait, Bahrein e Jordânia sofreram ataques iranianos, enquanto embarcações ligadas à Arábia Saudita, aos Emirados Árabes Unidos e ao Catar passaram a enfrentar riscos crescentes no Estreito de Ormuz.
Além dos impactos diretos sobre a infraestrutura de energia e abastecimento, a redução do tráfego marítimo na principal rota mundial de exportação de petróleo elevou preocupações quanto ao abastecimento global e contribuiu para novas altas nas cotações internacionais da commodity.
O conflito também passou a provocar questionamentos sobre a capacidade dos Estados Unidos de garantir a segurança de seus aliados na região. Segundo as fontes, algumas monarquias do Golfo passaram a intensificar conversas com países europeus para ampliar a cooperação em defesa e segurança marítima.
Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, defendem que a Europa assuma papel mais ativo na proteção da navegação e na futura operação de desminagem do Estreito de Ormuz, considerada fundamental para restabelecer o fluxo comercial. Em comunicado divulgado recentemente, Abu Dhabi pediu uma “paralisação imediata da escalada” e reiterou a necessidade de garantir uma navegação “segura e ininterrupta” pela hidrovia.
A pressão sobre a Casa Branca também aumenta à medida que o conflito se prolonga. Na terça-feira, 21, Trump admitiu que a campanha militar não terminará rapidamente. “Se saíssemos amanhã, teríamos tido um grande sucesso. Mas não vamos sair amanhã”, declarou durante encontro com o presidente do Líbano.
O presidente americano enfrenta um cenário complexo: uma eventual ampliação das operações militares pode elevar ainda mais os custos da guerra, ampliar a exposição de tropas americanas e provocar novos ataques iranianos contra bases e ativos dos Estados Unidos no Oriente Médio. Por outro lado, uma estratégia de contenção pode ser interpretada por parte dos aliados como insuficiente para restaurar a segurança da navegação e conter o avanço da influência iraniana na região.
No plano econômico, a continuidade das hostilidades mantém elevada a incerteza sobre o mercado internacional de energia. O Estreito de Ormuz, por onde normalmente transita cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo, permanece operando abaixo de sua capacidade habitual devido aos riscos de ataques e bloqueios. Para os países do Golfo, cuja prosperidade depende diretamente da exportação de petróleo e gás, a instabilidade representa ameaça não apenas às receitas fiscais, mas também aos projetos de diversificação econômica voltados para turismo, serviços financeiros e investimentos internacionais.