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Geopolítica

Países árabes divergem sobre futuro da guerra

Enquanto parte das monarquias árabes defende ampliar a ofensiva militar contra Teerã, outros governos pressionam Washington por uma solução diplomática para evitar uma guerra regional e proteger o mercado de energia
Por O Correio de Hoje
23/07/2026 | 13:56

A intensificação da guerra entre Estados Unidos e Irã vem expondo fissuras entre os principais aliados árabes de Washington no Golfo Pérsico. Embora compartilhem a preocupação com a expansão do conflito e seus efeitos sobre a segurança regional, governos da região passaram a divergir sobre a estratégia que deveria ser adotada pela administração de Donald Trump.

Enquanto parte das autoridades considera que uma resposta militar mais ampla poderia forçar Teerã a recuar, outro grupo, liderado por países como o Catar, defende a retomada imediata da diplomacia para evitar um conflito prolongado que comprometa o fluxo de petróleo, afaste investimentos estrangeiros e reduza a atividade econômica em uma das regiões mais estratégicas do mundo.

Míssil do Irã Copia
Aliados árabes dos Estados Unidos demonstram crescente insatisfação - Foto: reprodução / internet

Segundo fontes ouvidas pela Bloomberg, alguns integrantes dos governos do Golfo avaliam que os Estados Unidos deveriam ampliar as operações militares, incluindo o envio de tropas terrestres para áreas do Irã e até uma eventual tomada da Ilha de Kharg, principal terminal de exportação de petróleo iraniano.

A avaliação desse grupo é que apenas uma demonstração mais contundente de força levaria Teerã a abandonar ataques contra a navegação no Estreito de Ormuz e a fazer concessões em torno de seu programa nuclear. “Algo mais precisa ser feito, porque a dinâmica atual não obrigará o Irã a fazer qualquer concessão”, afirmou David Schenker, ex-diplomata americano para o Oriente Médio e pesquisador do Washington Institute for Near East Policy. Outros governos da região, entretanto, consideram que uma escalada aumentaria os riscos de um conflito regional de maiores proporções e ampliaria a instabilidade econômica.

A divisão representa uma mudança em relação aos meses anteriores, quando as monarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) atuavam de forma relativamente coordenada para incentivar Washington a buscar uma solução diplomática com Teerã. O agravamento das hostilidades nas últimas semanas, contudo, alterou esse cenário. Kuwait, Bahrein e Jordânia sofreram ataques iranianos, enquanto embarcações ligadas à Arábia Saudita, aos Emirados Árabes Unidos e ao Catar passaram a enfrentar riscos crescentes no Estreito de Ormuz.

Além dos impactos diretos sobre a infraestrutura de energia e abastecimento, a redução do tráfego marítimo na principal rota mundial de exportação de petróleo elevou preocupações quanto ao abastecimento global e contribuiu para novas altas nas cotações internacionais da commodity.

O conflito também passou a provocar questionamentos sobre a capacidade dos Estados Unidos de garantir a segurança de seus aliados na região. Segundo as fontes, algumas monarquias do Golfo passaram a intensificar conversas com países europeus para ampliar a cooperação em defesa e segurança marítima.

Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, defendem que a Europa assuma papel mais ativo na proteção da navegação e na futura operação de desminagem do Estreito de Ormuz, considerada fundamental para restabelecer o fluxo comercial. Em comunicado divulgado recentemente, Abu Dhabi pediu uma “paralisação imediata da escalada” e reiterou a necessidade de garantir uma navegação “segura e ininterrupta” pela hidrovia.

A pressão sobre a Casa Branca também aumenta à medida que o conflito se prolonga. Na terça-feira, 21, Trump admitiu que a campanha militar não terminará rapidamente. “Se saíssemos amanhã, teríamos tido um grande sucesso. Mas não vamos sair amanhã”, declarou durante encontro com o presidente do Líbano.

O presidente americano enfrenta um cenário complexo: uma eventual ampliação das operações militares pode elevar ainda mais os custos da guerra, ampliar a exposição de tropas americanas e provocar novos ataques iranianos contra bases e ativos dos Estados Unidos no Oriente Médio. Por outro lado, uma estratégia de contenção pode ser interpretada por parte dos aliados como insuficiente para restaurar a segurança da navegação e conter o avanço da influência iraniana na região.

No plano econômico, a continuidade das hostilidades mantém elevada a incerteza sobre o mercado internacional de energia. O Estreito de Ormuz, por onde normalmente transita cerca de um quinto do petróleo consumido no mundo, permanece operando abaixo de sua capacidade habitual devido aos riscos de ataques e bloqueios. Para os países do Golfo, cuja prosperidade depende diretamente da exportação de petróleo e gás, a instabilidade representa ameaça não apenas às receitas fiscais, mas também aos projetos de diversificação econômica voltados para turismo, serviços financeiros e investimentos internacionais.