A entrada em vigor da tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, incluindo o etanol, deve provocar perdas para empresas exportadoras, mas tende a produzir efeitos limitados sobre o conjunto da economia brasileira. A avaliação é de especialistas em comércio exterior e representantes do setor sucroenergético, que destacam a redução da dependência do mercado norte-americano nos últimos anos e a crescente diversificação dos destinos das exportações brasileiras.
Embora os Estados Unidos permaneçam como o segundo maior comprador do biocombustível nacional, atualmente respondem por menos de 16% do volume exportado pelo Brasil, percentual significativamente inferior ao registrado em anos anteriores. Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol, gerando receita próxima de US$ 1 bilhão. Desse total, cerca de 253 mil metros cúbicos — equivalentes a US$ 163 milhões — tiveram como destino os Estados Unidos.

Segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), mais de 84% do volume exportado e cerca de 82,5% da receita obtida com as vendas externas foram direcionados a outros mercados. Para o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luiz Carlos Delorme Prado, a diminuição da participação norte-americana nas exportações brasileiras reduz os efeitos econômicos da medida.
“A participação dos EUA nas exportações brasileiras já vinha diminuindo há anos. Antes mesmo do tarifaço, esse peso já era relativamente pequeno”, afirma. Na avaliação do economista, o episódio representa um problema para determinados segmentos, mas não altera de forma estrutural a trajetória da economia brasileira.
Os especialistas avaliam que o cenário reforça a necessidade de ampliar a inserção do etanol brasileiro em outros mercados. Para Delorme, a instabilidade da política comercial norte-americana durante a administração Donald Trump tornou o país um parceiro menos previsível para investimentos de longo prazo. “Ninguém gosta de perder um mercado como o dos Estados Unidos, mas, nas circunstâncias atuais, esse mercado se tornou muito problemático porque não oferece previsibilidade nem racionalidade”, afirma.
Segundo ele, investimentos voltados exclusivamente ao mercado norte-americano passaram a representar risco elevado, tornando mais estratégica a aproximação com países da Ásia, da Europa e de outras regiões. O governo brasileiro também sinalizou que pretende intensificar políticas de apoio à abertura de novos mercados para reduzir a dependência de destinos tradicionais.
A competitividade do setor sucroenergético brasileiro é apontada como um dos principais fatores para compensar eventuais perdas nas vendas aos Estados Unidos. Segundo o professor da Faculdade de Engenharia Agrícola da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), Luis Augusto Barbosa Cortez, o país reúne vantagens estruturais relacionadas ao clima, à produtividade agrícola e ao custo de produção.
Atualmente, cerca de 75% do etanol brasileiro é produzido a partir da cana-de-açúcar e 25% do milho, participação que deverá alcançar aproximadamente 30% até o fim da década. A expansão do etanol de milho, associada à integração entre agricultura e pecuária e ao aproveitamento energético da biomassa nas usinas, tem reduzido custos e ampliado a competitividade internacional do produto brasileiro. Além disso, a produtividade média nacional chega a cerca de 7 mil litros de etanol por hectare de cana, acima dos cerca de 5 mil litros obtidos nos Estados Unidos com o milho.
No campo diplomático, pesquisadores avaliam que a justificativa apresentada pelos Estados Unidos extrapola questões comerciais. O professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Niels Soendergaard, considera que a decisão possui “caráter eminentemente político”, apesar da fundamentação técnica apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR).
Entre os argumentos utilizados por Washington estão supostas restrições ao acesso ao mercado brasileiro de etanol, regras sobre comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, combate à corrupção e desmatamento ilegal. O governo brasileiro rejeita essas alegações, sustenta que cumpre integralmente as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC) e afirma que a investigação norte-americana não encontra respaldo nas regras multilaterais do comércio internacional.
As entidades representativas do setor também contestam a decisão americana. A Unica afirma que a política tarifária brasileira é aplicada de forma não discriminatória e compatível com os compromissos assumidos na OMC, além de destacar que não existe acordo bilateral que obrigue o Brasil a conceder tratamento diferenciado ao etanol norte-americano. A entidade atribui a redução das importações provenientes dos Estados Unidos ao crescimento da produção nacional, especialmente do etanol de milho, e defende uma solução baseada no diálogo entre os dois governos.