A possibilidade de um acordo de paz entre Ucrânia e Rússia parece cada vez mais distante na avaliação do escritor ucraniano Andrei Kurkov. Convidado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o autor afirmou que a população ucraniana já não acredita que a guerra terminará em breve e passou a conviver com a perspectiva de um conflito prolongado.
Em entrevista concedida antes de sua participação no evento, Kurkov disse que “talvez a guerra se torne um estado permanente”, percepção que, segundo ele, levou a sociedade a adaptar sua rotina e até sua produção cultural ao cenário de guerra.

Autor de Ucrânia: diário de uma guerra, obra iniciada antes da invasão russa de fevereiro de 2022 e recentemente relançada no Brasil, Kurkov avalia que nem Moscou nem Kiev demonstram disposição para recuar militarmente.
Segundo ele, o presidente Vladimir Putin considera o conflito decisivo para seu legado político e dificilmente aceitará negociações que possam ser interpretadas como sinal de fraqueza. Ao mesmo tempo, afirma que a Ucrânia ampliará ataques contra infraestrutura militar e energética russa, impulsionada pelo desenvolvimento de novos mísseis balísticos e pelo uso intensivo de drones.
Na avaliação do escritor, o próximo inverno poderá representar um período de maior pressão sobre a população ucraniana.
Cenário político
Kurkov também manifestou preocupação com a situação política interna da Ucrânia. Segundo ele, o presidente Volodymyr Zelensky perdeu parte da equipe que o acompanhava desde o início do mandato em meio a denúncias de corrupção e hoje concentra grande parte das decisões.
O escritor criticou ainda a substituição do ministro da Defesa, Rustem Fedorov, elogiado por combater irregularidades na pasta, e afirmou que o comandante das Forças Armadas, Oleksandr Sirskii, enfrenta crescente contestação entre militares.
Apesar das dificuldades internas, Kurkov avalia que o apoio europeu permanece consistente, mesmo após a redução do envolvimento dos Estados Unidos no conflito.
Impacto sobre a cultura
Além dos impactos militares e econômicos, o escritor chama atenção para as perdas culturais provocadas pela guerra.
Segundo ele, mais de 300 escritores, poetas e tradutores morreram desde o início da invasão, enquanto mais de 800 livrarias foram destruídas ou danificadas e museus permanecem fechados após ataques com mísseis.
Morador de Kiev, Kurkov relata que os habitantes da capital convivem diariamente com sirenes, ataques e noites sem dormir. Para ele, a continuidade do conflito alterou profundamente a vida da população e a própria produção literária do país, levando autores a escrever não mais sobre um eventual pós-guerra, mas sobre uma realidade marcada pela permanência do conflito.