O candidato ao Governo do Rio Grande do Norte Cadu Xavier (PT) afirmou que a engorda da Praia de Ponta Negra era uma obra necessária, mas que foi mal executada pela gestão do ex-prefeito de Natal Álvaro Dias (PL), hoje seu adversário na corrida eleitoral. O petista associou os problemas registrados na orla depois das chuvas à forma como o projeto foi conduzido e sugeriu que a antiga gestão acelerou a execução da obra para obter repercussão eleitoral.
“Candidato Álvaro, você fala que foi bem avaliado pelo povo de Natal, mas as consequências do seu governo no município restaram para o seu sucessor. Mais de R$ 100 milhões foram gastos na engorda de Ponta Negra”, declarou Cadu, durante debate entre os candidatos ao Governo do Estado transmitido pela Band RN no último domingo 9.

O candidato do PT mencionou ainda questionamentos relacionados aos tubos utilizados na drenagem e à origem da areia empregada na intervenção. “O Tribunal de Contas da União detectou que canos falsos foram colocados nessa obra. E também a areia foi retirada foi de uma jazida que não foi licenciada. É assim que você vai governar o Rio Grande do Norte? A pressa era só para ter um resultado eleitoral?”, perguntou Cadu.
O ex-secretário estadual de Fazenda reconheceu que a engorda era uma obra necessária diante do avanço do mar, mas sustentou que a execução comprometeu os resultados esperados. “Eu me criei jogando futebol na Praia de Ponta Negra. A Praia de Ponta Negra é o maior cartão-postal do nosso Estado. E você jogou R$ 100 milhões para fazer uma obra necessária, mas às pressas e mal feita”, afirmou.
Concluída no fim de 2024, na reta final da gestão de Álvaro Dias, a obra de engorda ampliou a faixa de areia de Ponta Negra com o objetivo de conter os efeitos do avanço do mar, como a erosão costeira. Falhas no sistema de drenagem complementar, porém, geraram um novo problema: a formação de alagamentos na faixa de areia após dias de chuva. Além disso, a praia registrou voçorocas, o que arrastou volumes de areia, desmanchando a engorda em alguns trechos.
O Ministério Público Federal ajuizou uma ação civil pública cobrando obras emergenciais, manutenção e limpeza da área, além da reestruturação do sistema de drenagem. O órgão aponta riscos para a saúde pública, a atividade turística, o Morro do Careca e a preservação da própria faixa de areia criada pela engorda.
Durante o debate, Álvaro exibiu fotografias da praia antes da intervenção para justificar a decisão de executar a obra. Segundo ele, o avanço do mar ameaçava o calçadão e modificava a configuração do Morro do Careca, exigindo uma ação imediata do poder público.
“Olha como estava aqui: a maré encostando, destruindo o calçadão, destruindo o Morro do Careca, que é o nosso cartão-postal. O Morro do Careca estava se transformando numa grande falésia”, afirmou o candidato do PL.
Álvaro acusou Cadu e também Robério Paulino (Psol) de se posicionarem contra uma intervenção que considera fundamental para a economia da cidade. “Você e Robério Paulino queriam que Natal e Ponta Negra fossem destruídas, prejudicando milhares de empregos, pessoas que vivem e sobrevivem do turismo e 70% dos investimentos turísticos da cidade de Natal, que estão localizados na Praia de Ponta Negra”, declarou.
O ex-prefeito também destacou o aumento da faixa de areia depois da obra. “Vocês deviam fazer uma reflexão e repensar esse negócio. Porque falam mal da Praia de Ponta Negra, uma praia tão bonita, tão agradável, recuperada com 50 metros de faixa de areia na maré cheia e 100 metros na maré seca, trazendo tranquilidade para as pessoas que frequentam e para os turistas que visitam a cidade”, disse.
Ao rebater Cadu, Álvaro contestou as críticas aos resultados da intervenção e questionou a dureza das declarações do adversário. “Como é que você tem coragem de dizer um negócio desse sobre a Praia de Ponta Negra? A praia é bonita”, afirmou.
Robério também atacou a execução da obra e protagonizou um dos momentos mais irônicos do debate. O candidato do Psol disse que entregaria uma galocha a Álvaro Dias, informando que o objeto teria sido enviado por moradores de Ponta Negra para que o ex-prefeito pudesse caminhar pela área depois das chuvas.
“Eu queria perguntar ao candidato Álvaro Dias se ele já foi, depois de uma chuva, à Praia de Ponta Negra. Eu vou dar daqui a pouco para ele uma galocha, que foi um presente dos moradores de Ponta Negra, candidato, para o senhor andar na sua piscina que o senhor fez em Ponta Negra”, provocou.
Robério classificou o resultado da obra como desastroso e perguntou se Álvaro pretendia reproduzir no Governo do Estado o mesmo padrão administrativo. “O senhor quer destruir o Estado do Rio Grande do Norte como destruiu Ponta Negra? Nosso principal cartão-postal, prejudicando os barraqueiros, a população, o comércio e o turismo do Estado? É lamentável. Um desastre”, afirmou.

O candidato do Psol também recordou a entrada de Álvaro na sede do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema), durante a cobrança pela licença ambiental da obra. “O senhor invadiu o Idema de forma irresponsável, sem ouvir o Idema, para fazer aquela bobagem que o senhor fez em Ponta Negra”, atacou.
Álvaro reagiu chamando Robério de desinformado e afirmou que o adversário desconhecia a situação enfrentada pela praia antes da intervenção. “O professor Robério falou que a gente destruiu Ponta Negra. Desinformado. O professor não mora aqui em Natal”, respondeu.
Ao mostrar novamente uma fotografia do período anterior à engorda, o candidato do PL concluiu: “Olha aqui como era Ponta Negra antes da engorda. Era assim que o professor Robério queria a Praia de Ponta Negra”.
Construção de reservatórios
Para tentar reduzir os alagamentos na faixa de areia de Ponta Negra, a Prefeitura do Natal pretende construir três reservatórios subterrâneos de infiltração no bairro. As estruturas deverão reter e infiltrar gradualmente parte da água da chuva antes que ela chegue à praia, diminuindo a formação de grandes poças e o risco de voçorocas.
Os reservatórios serão implantados na Rua João Rodrigues de Oliveira, próximo ao restaurante Old Five; na Avenida Praia de Pirangi, nas proximidades do Ô Bar; e na Rua Francisco Gurgel, em frente ao Visual Praia Hotel. As estruturas, que poderão alcançar 250 metros de comprimento e três metros de profundidade, receberão água proveniente da Vila de Ponta Negra, de outras áreas do bairro e da Avenida Engenheiro Roberto Freire.
A licitação recebeu quatro propostas e já foi concluída. A Construtora Ramalho Moreira venceu o certame com uma oferta de R$ 20,45 milhões. A empresa Arko Construções apresentou o menor lance, de R$ 20,18 milhões, mas foi inabilitada por não comprovar exigências técnicas previstas no edital.
O projeto também prevê dispositivos complementares de drenagem e deverá reforçar os 17 dissipadores já instalados ao longo da orla, que reduzem a velocidade da água, mas não evitam que grandes volumes cheguem à praia.
A gestão municipal ainda não informou quando as obras serão iniciadas. Mesmo com a licitação homologada, ainda são necessárias as etapas administrativas para formalização do contrato e emissão da ordem de serviço.