A escalada militar entre Estados Unidos e Irã reacendeu o debate sobre o risco de um novo conflito de longa duração envolvendo Washington no Oriente Médio. Após semanas de ataques, do rompimento do cessar-fogo e do bloqueio do Estreito de Ormuz, analistas avaliam que a guerra entrou em uma fase em que os objetivos políticos e militares anunciados pelo presidente Donald Trump — conter o programa nuclear iraniano e enfraquecer o regime de Teerã — permanecem distantes, enquanto aumentam os custos estratégicos e econômicos do confronto.
Especialistas em relações internacionais apontam que o cenário apresenta características semelhantes às chamadas “guerras sem fim”, conceito associado às campanhas militares americanas no Afeganistão e no Iraque após os atentados de 11 de setembro de 2001.

Para Ali Vaez, diretor do programa sobre o Irã no International Crisis Group, o memorando de entendimento firmado entre os dois países acabou servindo apenas para adiar novas hostilidades.
“Ambos os lados encararam o memorando de entendimento como a continuação da guerra por outros meios, e não como uma ponte para a paz.”
Segundo ele, a ausência de uma estratégia capaz de produzir um acordo sustentável pode criar “as circunstâncias para uma guerra sem fim”.
Estreito de Ormuz amplia riscos
A permanência do bloqueio ao Estreito de Ormuz amplia a complexidade do conflito. Responsável pelo escoamento de parcela relevante da produção mundial de petróleo, a passagem marítima tornou-se um instrumento de pressão do Irã sobre os Estados Unidos e seus aliados.
Diferentemente das guerras do Vietnã, Iraque e Afeganistão, Teerã dispõe da capacidade de provocar impactos imediatos sobre o mercado internacional de energia, elevando riscos para a inflação global, os custos do transporte marítimo e o abastecimento de combustíveis.
Analistas também observam que Washington busca preservar a superioridade militar recorrendo principalmente a ataques aéreos e navais, evitando, até o momento, o envio de tropas terrestres.
Negociações seguem travadas
Embora mediadores internacionais tenham retomado contatos com o governo iraniano em busca de uma trégua, o ambiente diplomático permanece fragilizado.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou que Teerã não pretende retomar negociações enquanto continuar sob ataques, enquanto o presidente Masoud Pezeshkian classificou o confronto como uma “guerra em grande escala”.
Para pesquisadores como Lawrence D. Freedman, do King’s College de Londres, Suzanne Maloney, da Brookings Institution, e Vali Nasr, da Universidade Johns Hopkins, a combinação entre objetivos políticos ambiciosos, impasse diplomático e relevância estratégica do Estreito de Ormuz aumenta a possibilidade de que a atual crise se transforme em mais um conflito prolongado envolvendo os Estados Unidos no Oriente Médio.