Ao conceder entrevista ao podcast Formação Potiguar nesta terça-feira, a reitora Cicília Maia tentou mais uma vez interditar qualquer debate sobre as propostas de privatização e até mesmo federalização da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern). Ao agir de tal forma, a reitora transforma qualquer discussão sobre o futuro da universidade em um tabu, como se apenas levantar hipóteses alternativas representasse um atentado contra a educação superior potiguar. Não parece razoável chegar a essa conclusão.
Instituições públicas existem para servir à sociedade, e não para se tornarem imunes ao escrutínio público. O debate sobre modelos de gestão, financiamento, expansão ou reorganização administrativa faz parte da boa governança. Isso vale para hospitais, empresas estatais, fundações, autarquias e, naturalmente, também para universidades públicas. Interditar previamente a discussão não fortalece a instituição; apenas empobrece o ambiente democrático.

A própria reitora afirma que quem propõe discutir federalização ou privatização trata a universidade como um fardo. A conclusão é precipitada. É perfeitamente possível reconhecer a importância histórica e social da Uern e, ao mesmo tempo, questionar se sua estrutura atual é a melhor alternativa para um Estado que enfrenta enormes limitações financeiras. Questionar não significa defender. Debater não significa destruir.
O contexto fiscal do Rio Grande do Norte, aliás, recomenda exatamente o contrário: mais discussão, mais transparência e mais planejamento. O Estado encerrou 2025 com disponibilidade de caixa negativa superior a R$ 3 bilhões, o segundo pior resultado do País, atrás apenas de Minas Gerais. Em outras palavras, faltavam recursos para honrar compromissos já assumidos. Ao mesmo tempo, levantamento da XP Investimentos mostrou que as despesas estaduais cresceram 17,7% acima da inflação nos primeiros meses de 2026, enquanto as receitas avançaram apenas 5,3%, colocando o Rio Grande do Norte entre os estados que mais ampliaram gastos no Brasil. O próprio governo reconhece desafios estruturais de baixa liquidez e elevado comprometimento das receitas correntes. O percentual destinado pelo Estado a investimento é o menor do Brasil, devido ao alto grau de comprometimento da receita com pessoal e outras despesas obrigatórias, como a Uern.
Diante desse quadro, é natural que todas as grandes despesas públicas sejam objeto de avaliação permanente. A Uern terá orçamento próximo de R$ 500 milhões em 2026.
A Uern é, sim, uma instituição relevante, que atende majoritariamente alunos oriundos da escola pública e de famílias de baixa renda. Mas é exatamente por sua importância e pelo volume de recursos envolvidos que ela deve estar aberta ao debate sobre eficiência, prioridades e perspectivas futuras. Sem defender qualquer proposta, vale ressaltar, aliás, que uma eventual federalização não acabaria com o acesso gratuito e democrático à instituição. E a propósito, recentemente este foi o caminho adotado pelo Governo do Estado, ao conceder três unidades do Iern ao Governo Federal. Agora, os prédios serão campi do IFRN.
Também merece ponderação a comparação feita pela reitora com estados como Ceará, Bahia e Paraná para justificar a manutenção e eventual ampliação das universidades estaduais. O argumento ignora uma variável essencial: capacidade financeira. Esses estados possuem estruturas econômicas e fiscais muito distintas da realidade potiguar. O Paraná, por exemplo, figura entre os estados mais sólidos do País sob a ótica fiscal. O Ceará mantém trajetória de equilíbrio financeiro construída ao longo de décadas. Copiar apenas o modelo institucional sem considerar as diferenças de arrecadação e solvência pode produzir diagnósticos equivocados.
Há ainda outra questão inevitável. Enquanto a educação superior reivindica mais investimentos, a educação básica do Rio Grande do Norte segue acumulando indicadores preocupantes e, frequentemente, ocupa as últimas posições em avaliações nacionais. O desafio da alfabetização, da aprendizagem e da permanência escolar continua enorme. Em um cenário de recursos escassos, não seria legítimo perguntar se parte dos esforços financeiros e políticos do Estado deveria estar concentrada justamente na base do sistema educacional?
Nada disso significa diminuir a importância da Uern. Pelo contrário. Uma universidade pública forte precisa estar inserida nas grandes discussões sobre desenvolvimento, inovação, produtividade e formulação de políticas públicas. Seu papel vai muito além da formação profissional. Ela deve produzir conhecimento capaz de transformar a realidade econômica e social do território onde está inserida.
Por isso, talvez outra pergunta tão relevante quanto saber se a Uern deve ou não ser federalizada, privatizada ou mantida exatamente como está é: como extrair o máximo potencial dessa instituição para ajudar o RN a superar sua histórica fragilidade fiscal, elevar sua competitividade e recuperar sua capacidade de investimento?
Afinal, se a universidade é um patrimônio do Estado — e há boas razões para considerá-la assim —, é legítimo esperar que ela participe ativamente da construção das soluções para os problemas do próprio Estado. A propósito, qual tem sido, em termos concretos, a contribuição da Uern e de seus pesquisadores para que o Rio Grande do Norte volte a ocupar posição de protagonismo como indutor do desenvolvimento econômico? Essa é uma discussão que merece ser feita. Sem dogmas, sem preconceitos e, sobretudo, sem interditos.