BUSCAR
BUSCAR
Economia

RN quer novos mercados e data centers

Secretário de Desenvolvimento Econômico afirma que novos mercados reduziram dependência americana e prevê investimentos estruturantes para o Estado
Por O Correio de Hoje
27/07/2026 | 16:23

Mesmo diante da nova rodada de tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, o Rio Grande do Norte chega ao atual cenário internacional em uma posição mais resiliente do que em anos anteriores. A avaliação é do secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Lahyre Rosado, que atribui essa condição ao processo de diversificação dos mercados compradores das exportações potiguares, à ampliação dos investimentos em infraestrutura e ao avanço de projetos considerados estruturantes, como o Porto-Indústria Verde de Caiçara do Norte, a cadeia do hidrogênio verde, a mineração e a regulamentação para instalação de data centers.

Segundo o secretário, o mercado americano perdeu participação na pauta exportadora potiguar sem que isso representasse redução nas vendas externas. Ao contrário, o Estado registrou crescimento das exportações e ampliou significativamente o número de países compradores.

capa portal 2026 07 27T161557.104
Governo do RN quer aproveitar potencial energético e hídrico para iniciar instalação de data centers / Lahyre Rosado, titular da Sedec - Foto: reprodução / instagram / internet

“Antes do primeiro tarifaço, tudo que nós exportávamos no Rio Grande do Norte, 7,8% ia para os Estados Unidos. Hoje, menos de 4%. E nós não diminuímos as nossas exportações. O Rio Grande do Norte, do ano passado para cá, bateu o recorde no volume das exportações, bateu o recorde no superávit da balança comercial, porque nós conseguimos ampliar as exportações em 14 novos mercados. São 81 países para onde o Rio Grande do Norte hoje exporta”, afirmou.

Na avaliação de Lahyre Rosado, o impacto das sobretaxas impostas pelo governo do presidente Donald Trump tende a ser pontual para a economia estadual, embora possa afetar empresas específicas.

“O impacto sobre o mercado, sobre a economia do Rio Grande do Norte, não vai ser nada alarmante. Claro, se uma empresa sofrer muito e perder empregos, qualquer emprego perdido é grave”, disse.

Produtos preservados

O secretário observou que parte dos principais produtos exportados pelo Estado ficou fora da lista de itens atingidos pelas tarifas de 25% anunciadas anteriormente pelos Estados Unidos. É o caso do pescado, principal produto potiguar destinado ao mercado americano.

Segundo ele, o maior entrave para o setor continua sendo o embargo europeu às exportações brasileiras de pescado, em vigor desde 2018.

“O mercado dos peixes frescos que nós exportamos é principalmente os Estados Unidos, porque a Europa tem um embargo para o pescado brasileiro desde 2018 ou 2019. Se resolver essa questão da Europa, está resolvida essa preocupação com a sobretaxa americana”, afirmou.

No caso da indústria salineira, Lahyre destacou que o setor já iniciou um movimento de redirecionamento das exportações após as primeiras medidas tarifárias anunciadas por Washington.

Segundo ele, cerca de 10% da produção estadual de sal é destinada ao mercado externo, sendo aproximadamente metade desse volume tradicionalmente enviada aos Estados Unidos. Com a mudança no cenário internacional, empresas passaram a buscar novos compradores.

“O setor salineiro exporta algo em torno de 500 mil a 600 mil toneladas. Metade ia para os Estados Unidos. Desde o primeiro tarifaço já diminuíram para os Estados Unidos e encontraram novos mercados. A solução tem sido a diversificação”, afirmou.

Reciprocidade econômica

Embora considere legítima a possibilidade jurídica de adoção da Lei de Reciprocidade Econômica pelo governo federal, Lahyre Rosado afirmou não defender a aplicação de novas tarifas contra produtos americanos.

Na avaliação dele, uma eventual retaliação elevaria os custos de máquinas, equipamentos, tecnologia e outros insumos utilizados pela indústria brasileira.

“Eu sou contra. Acho que o que nós importamos dos Estados Unidos pode ficar mais caro e pode ser ruim para a gente. Nós importamos tecnologia, máquinas e muita coisa que serve para a nossa economia. Quanto menos taxa tiver, termina sendo melhor”, explicou.

Data centers e novos investimentos

Outro tema tratado pelo secretário foi a regulamentação ambiental necessária para viabilizar grandes investimentos em data centers no Rio Grande do Norte.

Segundo Lahyre, a Procuradoria-Geral do Estado prepara o parecer jurídico que permitirá o encaminhamento da proposta ao Conselho Estadual de Meio Ambiente (Conema). Depois dessa etapa, o texto deverá seguir para apreciação da Assembleia Legislativa.

“Acredito que nos próximos dias deve ser liberado para ir para o Conema, para que a gente possa efetivamente fazer a atração de data centers para cá”, frisou.

O secretário destacou que, embora essas estruturas empreguem relativamente poucas pessoas durante sua operação, elas funcionam como catalisadoras de investimentos em tecnologia.

“Ela traz para o seu entorno muitos investimentos, traz mão de obra qualificada, é bom para as nossas universidades”, disse.

Segundo Lahyre, o Rio Grande do Norte reúne vantagens competitivas para esse tipo de empreendimento, entre elas a oferta excedente de energia renovável, a possibilidade de incentivos tributários e a existência de infraestrutura de transmissão.

Ele informou ainda que o governo estadual discute com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação a instalação de um supercomputador de aproximadamente R$ 1,8 bilhão, dentro do programa nacional voltado à computação de alto desempenho.

Projetos estruturantes

Além dos data centers, o secretário citou uma série de investimentos considerados estruturantes para a economia estadual. Entre eles estão o Porto-Indústria Verde de Caiçara do Norte, a planta de hidrogênio verde em Areia Branca e projetos de mineração, incluindo a exploração de minério de ferro na região de Tangará e de ouro em Currais Novos.

“Vivemos um momento muito especial. O data center é apenas uma das consequências desse momento. Temos o Porto-Indústria Verde, a planta de hidrogênio verde, mineração e vários investimentos acontecendo simultaneamente”, destacou.

Lahyre Rosado também afirmou que o Porto de Natal atravessa um ciclo de modernização após anos sem investimentos relevantes.

Entre as intervenções em andamento estão a dragagem para aumento do calado, melhorias estruturais e adequações para permitir a exportação de animais vivos. Segundo ele, o primeiro embarque de gado está previsto para agosto.

“O Brasil exporta hoje cerca de dois milhões de cabeças de gado por ano. Se o Rio Grande do Norte conquistar 10% desse mercado, isso representa mais de R$ 1 bilhão”, informou.

Na avaliação do secretário, o Estado poderá se consolidar como principal porta de saída para exportações de animais vivos no Nordeste, atraindo cargas inclusive de estados vizinhos.

Cenário eleitoral

Questionado sobre o cenário eleitoral, Lahyre afirmou que não pretende disputar mandato nas eleições deste ano, apesar de ter exercido dois mandatos como vereador em Mossoró.

Ele disse ter se decepcionado com a atividade parlamentar e afirmou que prefere atuar na administração pública.

“Já dei minha contribuição. Sempre gostei de estudar e de me preparar. O debate na Câmara Municipal de Mossoró era muito empobrecido de argumentos e de qualidade técnica. Isso me decepcionou”, afirmou.

Ao comentar a campanha eleitoral, o secretário declarou apoio à candidatura de Larissa Rosado, presidente estadual do PSB, na chapa governista encabeçada por Cadu Xavier, e disse acreditar na vitória do grupo político.

A entrevista foi concedida à rádio 94 FM, durante o programa Jornal da Cidade, na sexta-feira, 24.