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Artigo

A fake news de Jucurutu

Confira o artigo de Bruno Araújo nesta quinta-feira 20
Bruno Araujo
20/03/2025 | 05:40

Vinte e sete segundos. Esse tempo é suficiente para tirar o lixo do banheiro, trocar os panos de prato da cozinha, fazer uma compra online e, claro, utilizar as redes sociais para transformar um recorte da realidade em uma mentira. Após a inauguração da barragem de Oiticica pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Jucurutu, no Rio Grande do Norte, um trecho de seu discurso em que fala do pedido por hospitais universitários feito por representantes da cidade de Mossoró e da região Seridó foi recortado e compartilhado como “deboche” de Lula.

Do alto do palanque, o presidente explicava sobre os pedidos por hospitais e escolas e que, no passado, o clamor era por comida. Fato que, segundo ele, denota os avanços conquistados pelo País em seus governos. Mas nada disso aparece no vídeo que circula. Não há contexto, não há verdade. Esse episódio traduz o exercício distorcido da crítica pública, de uma atividade política amparada na desinformação.
Tempos de pós-verdade que dominam o ambiente digital e o debate público no País. Informar perdeu o sentido neste contexto.

Barragem de Oiticica. Foto: Reprodução/Instagram.
Barragem de Oiticica. Foto: Reprodução/Instagram.

Não há mais qualquer disfarce ou pudor em recortar a realidade quando o propósito é promover a desconstrução do adversário político, ainda que seja necessário desconsiderar que um fato tenha sido testemunhado por milhares de pessoas na internet ou mesmo pessoalmente.

O vídeo veiculado propaga notícia sabidamente falsa para desinformar ou obter vantagem, um exemplo clássico de fake news. O episódio reforça o ambiente de pós-verdade. Os fatos objetivos perdem importância em detrimento da indução da opinião e apelo à emoção ou crenças pessoais. Um apelo ao primitivo e familiar em contraposição ao que realmente aconteceu na tentativa de gerar um estado de extremos: ódio ou devoção. No caso de Jucurutu, a situação busca transformar o presidente da República, em alguém indesejado, alvo de rejeição do público norte-rio-grandense.

O movimento ocorre em atenção aos interesses econômicos dos veículos de comunicação e perfis em redes sociais que representam o interesse político de um grupo. Não há respeito ao cidadão que será alcançado pelo conteúdo. Para quem o propaga, são apenas gado, massa de manobra, criaturas acéfalas sem consciência, com pernas, braços e sentidos que os conduzem e permitem votar nas eleições.

É inegável que a mentira e a dissimulação são aspectos do ser humano desde tempos imemoriais. Ou se buscarmos algo mais preciso e científico, nasce com o desenvolvimento do neocórtex permitindo que o cérebro realizasse ações mais complexas. Porque, para mentir, primeiro, é necessário negar a verdade. Pedro, Heródoto, Galileu e Nixon mentiram e mudaram a história. Hoje, a mentira não é apenas uma ferramenta de efeito localizado que livra da guilhotina. Agora, para muitos, é a base para construção de uma sociedade em que a mentira e os mentirosos comandam.