Oskar é um solitário garoto de 12 anos. Alvo constante de bullying na escola, represa dentro de si uma raiva crescente. Certo dia, no pátio tomado por neve no prédio em que vive, conhece a pequena e pálida Eli. A conexão entre os desconhecidos se estabelece e Oskar permite que a amiga frequente a intimidade do seu lar. Paralelo a isso, uma série de mortes toma conta da cidade em que vivem. A narrativa aqui é um resumo da sinopse do filme sueco “Deixa ela entrar”, de 2008,que facilmente serviria de metáfora para a permissão dada diariamente por crianças, jovens e responsáveis para que ela entre em nossas vidas.
Ao contrário do roteiro escrito por John Ajvide Lindqvist, ela não tem o olhar melancólico, movimentos desconfiados e um pedido silencioso por companhia. A internet e suas redes sociais trazem uma infinidade de razões para que deixemos que entrem e permaneçam entre nós. Mas elas tem facetas diversas. Muitas delas, perigosas, mortais. Relatos sobre jovens radicalizados, transformados em misóginos, preconceituosos, violentos são múltiplos. Notícias de desafios que inundam a internet e, literalmente, matam crianças pipocam dia sim, dia não. Jovens aliciados, vítimas de violência sexual, também incontáveis.

E não. Não precisa puxar o cabo do seu roteador, jogar o celular no chão ou desligar o computador e atirá-lo pela janela. A internet em si não é o problema, ou mesmo, as redes sociais. Assim como na ficção, na fantasia, o roteiro é escrito e reescrito para alcançar seu objetivo simbólico por meio da narrativa, na vida real, fazemos o mesmo, por meio da regulação social a partir de leis, marcos, pactos e outras medidas que necessitam de guarida da sociedade.
A União Europeia aprovou, no final de 2022, o Digital Services Act (DSA) — Lei de Serviços Digitais, em inglês — para “prevenir atividades ilegais e prejudiciais online e a propagação de desinformação”, segundo informações da Comissão Europeia. As medidas impostas pela lei vão desde o combate aos conteúdos ilegais, transparência na moderação, controle sobre as opções de personalização, publicidade direcionada, proteção às crianças, segurança das eleições até o comércio eletrônico.
No Brasil, o tema tem sido politizado e polarizado. Um debate emburrecido por quem deseja obstacular a criação de limites para atuação no mundo virtual – que já existem no mundo real e analógico. Sob a égide da defesa da liberdade indiscriminada, os defensores da barbárie virtual chancelam a atuação das big techs que alimentam seus algoritmos pelo engajamento do ódio, das fakenews e da produção de conteúdos que colocam crianças e jovens em risco físico, psicológico e social. Discutir a regulação das plataformas digitais e das redes sociais digitais não é um debate sobre liberdade, mas sobre o poder delas quando entram em nossas vidas.