Escrevo este artigo horas antes do fatídico 1 de agosto de 2025, data em que o tarifaço imposto ao Brasil, as empresas e aos empregos brasileiros passaria a vigorar. A bomba de efeito massivo, entretanto, não explodiu conforme esperado. Ao assinar o decreto que impôs às tarifas de 50% sobre produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos, Trump recalculou a rota e deixou de fora 694 produtos importados do Brasil e postergou o início da vigência para 6 de agosto.
Os cálculos da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) apontam que os itens isentos do “tarifaço” representaram US$ 18,4 bilhões em exportações do país aos EUA em 2024 e corresponde a 43,4% do total de US$ 42,3 bilhões das exportações. A modulação da potência da “bomba” é motivada pela pressão doméstica americana – e da lógica, que por vezes, alcança os megalomaníacos. Sem amparo da opinião pública, se perde poder.

Desde que assumiu, Trump propôs tornar o Canadá o 51º estado americano. Considerou ações militares para retomar o “Canal do Panamá”. Pronunciou a intenção de tomar a Groelândia, que pertence a Dinamarca. Bravatas superlativas e pirotécnicas de um valentão. Na prática, a boa e velha intimidação do maior sobre o menor pela força de ações no viés econômico para manter os Estados Unidos e o dólar protagonistas do mundo – sofra quem sofrer. Com o adendo de tentar submeter o Judiciário brasileiros aos devaneios imperialistas de Trump.
Na contramão, o Brasil tem, nos últimos 20 anos, avançado e fortalecido laços com países do BRICS, Mercosul, União Europeia e Ásia para reduzir a dependência de qualquer mercado único, como os EUA. E diante do avanço dessas relações econômicas multilaterais, novos blocos econômicos e a ascensão da China, os Estados Unidos atuam. Trump radicaliza.
No caso brasileiro, o “embargo” vai além e tenta sequestrar a soberania nacional. A economia brasileira tratada como “refém” para que Jair Bolsonaro, acusado de “tentativa de golpe de estado”, não seja condenado. O magistrado, inclusive, foi alvo de represálias por fazer valer a lei. Não há precedente nas democracias modernas, especialmente pelo fato do autor da chantagem internacional dizer governar o país e o mundo. Não se negocia soberania. Ceder só empodera o algoz. Negociação e diplomacia são o caminho, mas uma via de mão dupla.
Todo episódio e a postura do governo brasileiro fazem lembrar um vigilante mascarado conhecido como V, personagem da cultura pop, que luta contra um regime totalitário. Ao conversar com um de seus algozes, ele teceu um dos diálogos mais icônicos dos quadrinhos e que, vez ou outra, aparece em grandes mobilizações em defesa das democracias pelo mundo: “Não há carne nem sangue sob esta capa… só uma ideia. Ideias são à prova de balas.” Uma metáfora sobre a defesa de algo acima de alguém. Uma defesa da resistência, liberdade e da justiça.