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Artigo

Eleito sem compromisso

Confira o artigo de Bruno Araújo nesta sexta-feira 4
Bruno Araújo
04/04/2025 | 06:00

A política é feita de oportunidades. Quando o domo medieval, disputas e ocupações de territórios e tronos eram decidas à base da espada. Outras, em casamentos forjados a ódio e interesses comuns. De toda forma, um cavalo que passa selado diante de um político com alguma experiência no ramo não costuma chegar ao destino final sem um jóquei.

Há, entretanto, linhas acinzentadas que precisam ser observadas antes de assentar na montaria, especialmente em razão de um compromisso estabelecido entre um candidato – posteriormente eleito – e a população que o concedeu os votos.

Eleitores voltam às uRio Grande do Norteas no dia 27 / Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
Eleito sem compromisso. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Nos últimos dias, corre à boca miúda nomes de diversos vereadores eleitos, em Natal e no interior, alguns ainda em primeiro mandato, que sinalizam com a possibilidade de disputarem outros cargos eletivos pouco menos de dois anos da sua eleição à Câmara Municipal. O fato é que, mais do que terem respeito ao cargo para os quais foram eleitos, é fundamental que políticos entendam que, apesar de serem eles os nomeados pela população, o cargo em si é da sociedade.

Quando um político busca uma ascensão em nível de poder e representatividade, essa busca também precisa ser aquiescida pela população que o elegeu para um mandato de quatro anos e com os respectivos compromissos a serem cumpridos no período. A própria legislação em si deveria oferecer barreiras à descontinuidade representativa.

Imagine, por exemplo, a existência de uma obrigação legal que impusesse aos representantes eleitos para cargos públicos a condição de cumprir de maneira integral o primeiro mandato para o qual foi eleito para então pleitear participação em processos eleitorais para outros cargos. Resumidamente, antes de tentar a disputa para uma cadeira na Assembleia Legislativa ou Câmara Federal, um vereador precisaria cumprir ao menos seu primeiro mandato eletivo.

Isso é o mínimo para evitar que em uma sociedade líquida como a nossa, na qual pessoas são alçadas a condição de “celebridade da internet” na velocidade de um zap, indivíduos busquem a ascensão apenas pela oportunidade que passa, selada e em trote, à porta. Uma clara demonstração de projeto de poder pessoal, que ignora as necessidades reais das pessoas, e desrespeita o cargo para o qual foi eleito inicialmente. Mas é apenas uma faceta do problema.

Os eleitores também precisam passar por um processo de educação cidadã. Escolas, veículos de comunicação oficiais e alternativos, campanhas educativas, instituições diversas da sociedade civil devem contribuir para a construção de uma consciência de valorização do voto e da representação nas mesas de discussões e decisões quanto ao enfrentamento contínuo aos problemas que a sociedade no dia a dia. A dança das cadeiras mediada por eleições de dois em dois anos, faz rodar a composição nos Legislativos, e na maior parte das vezess, quem fica sem a cadeira é o eleitor, não o eleito.