A disputa pelo poder é inata da atividade política. Os freios e contrapesos equilibrados, como a existência de poderes independentes faz a diferença para haver uma República democrática. Mas o que fazer quando uma nação é sitiada economicamente por uma nação estrangeira com apoio de representantes do Legislativo do próprio país? Apoio retórico e prático com um sítio político onde os verdadeiros problemas do país deveriam estar em pauta. Tudo em defesa de um ex-presidente acusado de tentar desestabilizar o país, incentivar, planejar e dar cabo de uma tentativa de golpe de estado.
Normalmente, o “estado de sítio” se refere a um cerco militar que nega o direito de ir e vir e acesso a suprimentos para enfraquecer e tornar o alvo vulnerável à conquista. Para o deputado federal Eduardo Bolsonaro, o figurativo não era exatamente suficiente. O parlamentar chegou a sugerir (e desejar) “um porta-aviões chegar no Lago Paranoá —se Deus quiser, chegará em breve”, do que parlamentares brasileiros e o vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmin, serem recebidos na Casa Branca.

Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, é um dos artífices do tarifaço de 50% que impacta desde 6 de agosto cerca de 35,9% das exportações brasileiras aos EUA determinada pelo presidente Donald Trump. Um efeito devastador sobre cerca de 10 mil empresas brasileiras que empregam, juntas, aproximadamente 3,2 milhões de pessoas.
No aspecto mais amplo, o termo sitiado é facilmente associado a algo ou alguém fortemente pressionado ou assediado para ceder a um objetivo externo, alheio aos próprios interesses. Definição figurativa colocada em prática pelo senador do Rio Grande do Norte, Rogério Marinho, que, em coletiva de imprensa, defendeu “a votação da anistia até para que nós possamos tratar de assuntos que interessam ao Brasil.” Uma confissão de que valem primeiro os interesses privados às necessidades de uma toda nação.
Em abril, a Procuradoria Geral da República (PGR) denunciou 34 pessoas, dentre elas Bolsonaro, pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de golpe de Estado, tentativa de abolir o Estado Democrático de Direito, deterioração do patrimônio público tombado e dano qualificado por emprego de violência e grave ameaça. Somadas, as penas superam os 30 anos de cadeia. Pessoas processadas pelo ataque ao coletivo. Atitude reproduzida pelo senador potiguar e por toda uma oposição que prioriza a liberdade de Bolsonaro em detrimento, por exemplo, dos setores salineiro e pesqueiro do RN.
Ao invés de endossar o coro vazio por anistia, senador e deputados potiguares deveriam defender pessoas, empregos e empresas do estado que os elegeram e não se enfileirarem diante do pelotão de fuzilamento da própria biografia. Com pouco mais de um ano da para a eleição, a história e a sociedade vão cobrar o preço de quem escolheu os seus em detrimento de todos.