Quando ouvimos a palavra messias, inevitavelmente, associamos a uma figura redentora, capaz de espalhar esperança, um símbolo de salvação. A palavra, entretanto, tem valor simbólico. A prova disso é a reflexão coletiva nos estudos da psicologia humana que deu origem ao conceito da síndrome ou complexo de messias, ou seja, um estado da mente em que um indivíduo que acredita ter uma missão especial ou ser uma espécie de salvador. Para esses, a forma não importa. O que interessa, supostamente, é o objetivo.
Sob a égide da liberdade (da própria, inclusive), não há uma preocupação quanto aos efeitos diretos ou indiretos dos seus atos, desde que redundem no alcance de seu desígnio. Pessoas mortas em razão da negação à vacina, pelo uso de medicação sem efeito, instabilidade política amparada na descrença das instituições pautada por informação falsas ou mesmo o ataque a economia, aos empregos e empresas, bem como, a intervenção estrangeira contra a justiça brasileira e a soberania nacional.

O “falso messias” é ególatra. O coletivo não é o campo de sua atuação. Olhar para o lado é um movimento que contraria sua natureza. Mirar de cima para baixo é sua missão. Seu signo de nascença. O poder é o que alimenta sua existência. O discurso sedutor se ampara, como explica com maestria o sociólogo Jessé Souza, na exploração e amplificação dos sentimentos de medo, insegurança e ressentimento presentes na sociedade para atrair adeptos que, após incluídos em seu círculo de fiéis, passam a defender até mesmo aquilo que os prejudique em favor de seu líder.
A todo instante, surgem na política candidatos à posição de “messias”. Eles são, nada mais, do que figuras caricatas daquilo que a palavra simboliza realmente. Se apropriam do simbólico para ganhar poder, dinheiro, atenção, relevância. Quando ameaçados ou desmascarados, entregam, um a um, aqueles em seu entorno, sem qualquer pudor. Capazes, inclusive, de tornarem reféns de seus interesses milhões, desde que possam se livrar de qualquer que seja a penalidade. O objetivo é continuar livre, não importa o custo.
O feitiço lançado pelo canto da sereia que conduzia as embarcações na direção de grandes paredes de pedras é o mesmo que envolve o discurso do “falso messias” que inebria e empodera a ignorância, fanatismo, oportunismo e um suposto senso de superioridade. Pilares indissociáveis da construção que sustenta o púlpito sobre o qual a figura messiânica se ergue para tomar o que supostamente acredita ser seu por direito, mas que na verdade, pertence a outros.
Não se deixar domar pelo argumento simplório da falsa identificação é o primeiro passo para extirpa-los da sociedade. Observar se o discurso e a prática caminham lado a lado também é fundamental. Por fim, atinar para a existência de um sentimento real de coletividade ou se o tom é de separação embalado por uma superioridade moral, cultural ou afim. Talvez não seja tão simples quanto parece, mas o exercício diário pode evitar repetir um passado longínquo ou recente, quando eles apareceram e deixaram um rastro de destruição e morte pelo caminho.