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Opinião

Tabagismo volta a crescer e acende alerta

Avanço do cigarro eletrônico entre jovens e custos elevados ao sistema de saúde acendem alerta
Por O Correio de Hoje
27/04/2026 | 16:51

A elevação recente do número de fumantes no Brasil acende um alerta relevante para o poder público. Após décadas de redução contínua iniciada nos anos 1980, o país volta a registrar crescimento. Dados do Ministério da Saúde indicam que a proporção passou de 9% em 2021 para 11,5% em 2024, último período com estatísticas disponíveis. Embora esse índice ainda esteja abaixo dos quase 16% observados há duas décadas e distante do cenário do fim dos anos 1970, quando mais de um terço da população adulta fumava, a trajetória vinha sendo de queda quase ininterrupta até 2023, quando atingiu 9,2%. A mudança recente compromete um dos programas de controle do tabagismo mais reconhecidos internacionalmente.

O problema vai além dos danos clássicos associados ao cigarro, como câncer de pulmão e doenças cardiovasculares, responsáveis por cerca de 180 mil mortes anuais no país. Os impactos da dependência de nicotina também pressionam o sistema de saúde ao longo do tempo. Estimativas apontam gasto anual de R$ 153 bilhões para tratar enfermidades relacionadas ao tabagismo, sendo R$ 98 bilhões apenas no Sistema Único de Saúde. Em contrapartida, a arrecadação de impostos sobre cigarros cobre somente 5% desse montante.

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Ainda que faltem estudos consolidados de longo prazo, há indícios claros de que a expansão recente do tabagismo está ligada ao avanço do cigarro eletrônico entre jovens. Mesmo proibidos, os dispositivos se espalham rapidamente. Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo mostrou que um em cada nove adolescentes declarou utilizá-los no ano passado, e o uso entre jovens é cinco vezes maior do que o consumo de cigarros tradicionais.

Levantamento conduzido pela Universidade Federal de Pelotas em parceria com a organização Vital Strategies reforça esse cenário. Entre 9 mil entrevistados, cerca de 24% dos jovens afirmaram já ter experimentado vape há três anos, percentual superior aos menos de 20% registrados um ano antes. No primeiro estudo, 6,1% relataram uso frequente e 0,5% diário. Na rodada seguinte, considerando todas as idades, 8% disseram utilizar cigarros eletrônicos, ante 7,7% anteriormente. Entre pessoas de 25 a 34 anos, o índice avançou de 10,3% para 13,2%.

Além da nicotina, esses dispositivos liberam substâncias prejudiciais, incluindo metais pesados, sem qualquer controle sanitário, já que são produzidos ilegalmente. A difusão entre os mais jovens exige resposta imediata. É necessário intensificar a fiscalização para garantir o cumprimento da proibição estabelecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, além de promover campanhas de conscientização que envolvam a sociedade e reforcem a rejeição ao uso desses produtos, equiparando-os ao estigma já consolidado em relação ao cigarro convencional.

Estudos do Instituto Nacional de Câncer indicam que o aumento de preços foi determinante para reduzir o número de fumantes desde os anos 1990. O valor mínimo do maço subirá de R$ 6,50 para R$ 7,50 em maio, nível ainda considerado insuficiente para conter a recente alta no consumo. A experiência acumulada aponta que medidas mais imediatas são necessárias, sem aguardar a implementação da reforma tributária, que prevê taxação adicional sobre produtos nocivos. Tornar o hábito de fumar mais caro continua sendo uma das estratégias mais eficazes. O crescimento da proporção de fumantes não pode ser tolerado.