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Opinião

Brasil trava o próprio desenvolvimento

Texto aponta entraves estruturais, perda de confiança e necessidade de liderança com visão de longo prazo
Por O Correio de Hoje
27/04/2026 | 16:50

O Brasil enfrenta um momento de forte turbulência. O cenário é de incerteza, ruído e perda de confiança. A sociedade se divide entre reações seletivas e impulsos passionais, enquanto se esvai a noção de projeto coletivo, de futuro e de ambição nacional. Não faltam ao país recursos naturais nem capacidade estratégica. O que se evidencia é a ausência de liderança dotada de autoridade moral, visão histórica e compromisso público. Torna-se urgente a escolha de um presidente da República com orientação desenvolvimentista. O país necessita de um estadista.

A instabilidade da economia global, marcada por conflitos geopolíticos, guerras, rupturas logísticas e disputas por energia, alimentos e minerais, elevou a importância de países com abundância de recursos. O Brasil se enquadra com precisão nesse perfil. Detém a maior reserva de terras agriculturáveis do mundo, concentra cerca de 12% da água doce renovável do planeta e dispõe de uma matriz energética relativamente limpa, além de petróleo e reservas expressivas de lítio, grafite, níquel, manganês e terras raras. O potencial é evidente.

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Poucas nações reúnem condições tão favoráveis para assumir protagonismo em um novo ciclo de crescimento global. Em um ambiente de insegurança alimentar, crise energética e escassez de minerais estratégicos, o Brasil poderia desempenhar papel decisivo. Conta com clima favorável, base industrial relevante, capacidade de expansão agrícola e posição estratégica para atrair investimentos. É reconhecido internacionalmente como território de oportunidades. Ainda assim, age como se estivesse condenado à estagnação.

Apesar desse cenário, o avanço sustentável do país permanece travado. Trata-se de uma realidade frequentemente evitada. Um conjunto complexo de entraves burocráticos, insegurança jurídica e decisões inconsistentes tem bloqueado investimentos, afastado oportunidades e limitado a geração de empregos. Não se discute a importância da preservação ambiental nem do controle institucional. O ponto central está no excesso, no abuso e na distorção que convertem instrumentos legítimos em barreiras ao desenvolvimento.

A dificuldade não decorre da falta de legislação, mas do seu excesso. Há normas em demasia, exigências excessivas e morosidade persistente. Grandes obras demoram anos para sair do papel. Projetos estratégicos são interrompidos por disputas judiciais prolongadas. Empreendedores enfrentam instabilidade regulatória e interpretações divergentes. As consequências são claras. Investidores recuam, empresas deixam de avançar e empregos deixam de surgir.

O caso da exploração de petróleo na Margem Equatorial ilustra esse quadro. Após anos de impasse, autorizações acabam sendo concedidas com condicionantes que, na prática, inviabilizam a execução. A Ferrogrão, fundamental para o escoamento da produção agrícola, segue paralisada por decisões que desconsideram seus efeitos econômicos e sociais. O resultado se repete. Perda de competitividade, aumento de custos e desperdício de riqueza.

Destravar o desenvolvimento tornou-se uma necessidade imediata. Isso requer enfrentar a cultura da paralisação, simplificar regras, reduzir a burocracia e assegurar previsibilidade jurídica para quem investe e produz. Exige também combate firme e contínuo à corrupção. Trata-se não apenas de um desvio ético, mas de um custo oculto que penaliza os mais pobres, encarece obras, distorce prioridades e compromete a confiança nas instituições.

A relação é direta. Sem confiança, não há investimento. Sem investimento, não há crescimento. Sem crescimento, não há justiça social.

O estadista compreende essa dinâmica. Não se perde em disputas menores nem se orienta pelo calendário eleitoral. Atua com horizonte de longo prazo, pensando em décadas. Sua autoridade se sustenta na coerência entre discurso e prática. Governa com foco em resultados duradouros, consciente de que desenvolvimento exige planejamento, disciplina e continuidade.

Essa liderança reconhece que educação, ciência e tecnologia são investimentos estratégicos. Nenhum país alcançou relevância internacional sem formar capital humano, estimular inovação e fortalecer sua base produtiva. O Brasil precisa retomar valores como mérito, excelência, trabalho e esforço individual.

O cenário atual revela a ausência desse tipo de liderança. A política tem sido marcada por agendas de curto prazo, personalismo e conflito permanente. O debate público perdeu qualidade. A visão de longo prazo se enfraqueceu. O interesse nacional foi substituído por cálculos imediatos.

Romper esse ciclo é imperativo. É necessário recuperar a ideia de projeto nacional, recolocar o desenvolvimento no centro da agenda, investir em infraestrutura, ciência, tecnologia e educação de qualidade. É preciso valorizar a produção, estimular a indústria, integrar o território e, simultaneamente, preservar o meio ambiente com racionalidade e responsabilidade, sem posturas que levem à paralisia.

O país precisa superar os bloqueios que impedem seu avanço. Precisa deixar para trás a lógica da politicagem e voltar a pensar em grande escala. O Brasil necessita de um estadista.