A corrida eleitoral ainda não foi oficialmente iniciada, mas já permite antever um cenário pouco estimulante para o eleitorado. Observando a atuação dos dois principais nomes colocados até aqui na disputa presidencial, o que se delineia é um período prolongado de escassez de ideias até o momento do voto. Tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto o senador Flávio Bolsonaro vêm reiterando um padrão que se consolidou em eleições recentes no País. Nenhum dos dois demonstra disposição para sustentar um debate estruturado em dados, prioridades nacionais e propostas alinhadas às demandas mais urgentes do Brasil. O que prevalece, ao contrário, é a disseminação de inverdades, a troca de ataques pessoais e o incentivo a uma lógica de confronto identitário que pouco dialoga com o interesse coletivo.
De um lado, está Lula, cuja trajetória recente é descrita como marcada por ideias que não acompanharam as transformações do Brasil e do mundo contemporâneo, além de sua associação a dois dos mais amplos escândalos de corrupção da história recente, o “mensalão” e o “petrolão”. No polo oposto, surge Flávio Bolsonaro, senador cuja presença política está diretamente vinculada ao sobrenome que carrega e que, além de questionamentos sobre sua capacidade administrativa, é alvo de suspeitas relacionadas à condução de um esquema de “rachadinhas” em seu gabinete na Alerj, expressão que abrange acusações como peculato, corrupção e lavagem de dinheiro.

Esse quadro contribui para ampliar a percepção social de deterioração das práticas políticas no topo da estrutura de poder. Quando se estabelece, no imaginário coletivo, a ideia de que “todos são corruptos”, a escolha do eleitor tende a se afastar de critérios programáticos e racionais, deslocando-se para dimensões identitárias e emocionais. Nesse ambiente, o interesse público perde centralidade, dando lugar à reafirmação de crenças e pertencimentos.
Esse quadro contribui para ampliar a percepção social de deterioração das práticas políticas no topo da estrutura de poder. Quando se estabelece, no imaginário coletivo, a ideia de que “todos são corruptos”, a escolha do eleitor tende a se afastar de critérios programáticos e racionais, deslocando-se para dimensões identitárias e emocionais. Nesse ambiente, o interesse público perde centralidade, dando lugar à reafirmação de crenças e pertencimentos.
Essa dinâmica ajuda a compreender por que temas periféricos acabam ocupando o núcleo do debate eleitoral. Questões ligadas à chamada “guerra cultural”, sobretudo aquelas relacionadas a costumes, passam a organizar a discussão pública, enquanto problemas estruturais de maior relevância permanecem em segundo plano ou são simplesmente ignorados. Essa inversão compromete o nível do debate democrático e reduz a capacidade do eleitor de formar juízo com base em elementos consistentes.
Diante desse cenário, a expectativa expressa é de que esse não seja um caminho inevitável. A campanha eleitoral deveria funcionar como espaço de construção de uma agenda qualificada para o Brasil. O país acumula atrasos em diversas frentes, que vão desde a incorporação de novas tecnologias, como a inteligência artificial, até a modernização do Estado. Incluem-se ainda o equilíbrio fiscal, a melhoria da educação básica, a reorganização do Sistema Único de Saúde e a necessidade de reforma do Judiciário. Esses desafios são amplamente conhecidos e diagnosticados há anos, mas esbarram na ausência de vontade política para enfrentamento sério.
Nesse contexto, atribui-se às forças políticas de orientação liberal e democrática um papel específico. Distantes dos polos mais radicalizados que hoje dominam e contaminam o debate público, o campo de centro teria a responsabilidade de apresentar ao País uma proposta consistente de governo, com visão de Estado, capaz de articular responsabilidade fiscal, sensibilidade social e fortalecimento institucional. Ainda que esse posicionamento não se mostre majoritário nas pesquisas de momento, sua atuação é vista como relevante para elevar o nível do debate público e contribuir para o aperfeiçoamento da democracia. Diante de suas limitações e potencialidades, o Brasil demandaria um debate mais qualificado do que o atualmente observado.