A pressão sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) abriu uma disputa paralela entre pré-candidatos que tentam ocupar espaço à direita sem depender diretamente do bolsonarismo. Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) passaram a tratar de formas distintas a revelação de que Flávio pediu dinheiro ao ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, para financiar um filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Depois que o episódio veio a público, o senador caiu mais de cinco pontos percentuais na pesquisa Atlas/Bloomberg.
Zema foi o primeiro a sentir o custo político de atacar Flávio. Após criticar o senador por causa dos áudios vazados, tornou-se alvo de bolsonaristas e, no domingo, reduziu o tom ao dizer que o assunto era “página virada” e que não havia rompimento. Aliados negam recuo. A orientação, segundo eles, é que o ex-governador de Minas Gerais volte a se manifestar sempre que surgir um fato considerado grave.

Foi o que ocorreu na terça-feira 19, depois de Flávio confirmar que esteve na casa de Vorcaro em novembro do ano passado, após a primeira prisão do banqueiro. O senador disse que a visita serviu para encerrar a relação com o empresário e afirmar que, se soubesse que a “situação [do Master] era grave”, teria procurado outro investidor para bancar o filme sobre Jair Bolsonaro.
Em viagem a Santa Catarina, onde a postura de Zema abalou a relação entre PL e Novo, o ex-governador voltou a criticar as explicações do senador. “É um fato lamentável o que nós estamos vendo mais uma vez, um fato muito grave. E não há uma explicação convincente. Ter credibilidade é fundamental para poder governar um Estado ou País. Espero que tudo isso seja muito bem esclarecido”, disse a jornalistas. Depois, afirmou que mora em Belo Horizonte, mesma cidade de Vorcaro, mas nunca se reuniu com ele, não foi procurado pelo ex-dono do Master e nem tem seu telefone. “Me parece que assombração sabe para quem aparecer. E para mim não apareceu”, acrescentou.
O entorno de Zema compara a disputa atual com 2018, quando a candidatura do Novo em Minas buscava firmar a identidade liberal da sigla e acabou encontrando uma oportunidade eleitoral. Agora, os aliados dizem que o objetivo imediato é nacionalizar Zema, ajudar o Novo a superar a cláusula de barreira e consolidar o partido entre independentes e direitistas não bolsonaristas. Para isso, avaliam que ele precisa se diferenciar de Flávio, sob risco de deixar esse eleitorado para Renan Santos.
Renan adotou a linha mais agressiva. “Vou continuar dando porrada”, disse à imprensa. Em vídeo, sugeriu que Flávio fosse levado a uma clínica e afirmou que ele não tem condições de ser “pré-candidato a absolutamente nada […] Nenhuma pessoa em sã consciência acredita que uma pessoa foi na casa da outra para avisar que não vai fazer mais negócios com ela”. Antes das revelações do The Intercept Brasil, Renan já recusava o papel de auxiliar de Flávio e o atacava com intensidade semelhante à usada contra Lula (PT). “O bolsonarismo é o traidor da causa que se aproveita disso para levar as moedas de prata. O judas e o capeta precisam ser detonados”, declarou. Também disse querer “prender” o senador e provocou Zema: “Diferente do Zema, que quer ser vice do Flávio, eu vou atacar o Flávio todas as vezes que for necessário”.
Ronaldo Caiado segue por caminho oposto. Foi o mais cauteloso e acabou elogiado por Flávio. O ex-governador de Goiás disse que o senador deve explicações, mas evitou julgar o conteúdo dos áudios. Aliados afirmam que a postura foi definida pelo próprio Caiado, sob o argumento de que ainda não há acusação ou denúncia contra o pré-candidato do PL. “Não cabe a cada pré-candidato ficar fazendo juízo de valor das pessoas”, disse, após evento da Associação Paulista de Supermercados (Apas), em São Paulo.
A pesquisa Atlas/Bloomberg mostra que Zema seria o maior beneficiado se Flávio deixasse a disputa. Ele sai de 5,2% com o senador na corrida para 17% sem a candidatura de Flávio. Com Michelle Bolsonaro (PL) no lugar, Zema marca 10%, atrás da ex-primeira-dama, que tem 23,4%. Caiado vai de 2,7% para 13,8% sem Flávio e 6% com Michelle. Renan passa de 6,9% para 8% sem o senador e 7,8% com Michelle.
Suplência
A vereadora Samanda Alves (PT), presidente estadual do PT no Rio Grande do Norte, afirmou que Jean Paul Prates não está garantido na suplência de Rafael Motta na chapa da esquerda. Segundo ela, o grupo reúne hoje cinco partidos e pode chegar a oito, o que impediria assegurar que o pré-candidato ao Senado e o suplente sejam do mesmo partido, no caso o PDT. Nos bastidores, a leitura é que o próprio PT quer ocupar a vaga de suplência. A fala de Samanda foi interpretada como um recado direto a Jean Paul, deixando claro que a definição terá de passar por entendimento entre todos os partidos da aliança.
Silêncio
Carlos Eduardo Alves (União) segue em silêncio depois de não co nseguir se viabilizar para nenhuma candidatura nas eleições de 2026. Nos bastidores, porém, ainda há expectativa no núcleo de Alysson Bezerra (União) de que o ex-prefeito de Natal entre na campanha do prefeito de Mossoró para tentar ampliar sua presença na capital. Natal continua sendo o principal colégio eleitoral de Carlos Eduardo, embora ele tenha sido derrotado em 2024 e sequer tenha chegado ao segundo turno.