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Opinião

Flávio vira peso para a própria direita

Desgaste no campo bolsonarista amplia dúvidas sobre viabilidade eleitoral do senador e abre espaço para alternativas à polarização
Por O Correio de Hoje
19/05/2026 | 15:55

A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República passou a depender menos de sua própria capacidade política, ou mesmo da força de Jair Bolsonaro, e mais do que ainda pode aparecer nas investigações da Polícia Federal e na eventual delação premiada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O sucesso possível, aqui entendido como sobrevivência competitiva e não necessariamente como vitória, está condicionado aos segredos que ainda possam emergir. É difícil imaginar que nada mais venha à tona, sobretudo depois de Flávio ter perdido credibilidade entre os seus ao esconder a relação com Vorcaro. Se ocultou isso, o que mais pode ter ocultado?

Os sinais já enviados a Vorcaro indicam que ele terá pouco espaço para tentar enganar investigadores do Ministério Público e da PF. Ao mesmo tempo, a reação do eleitorado bolsonarista, captada pelos trackings e que deverá aparecer nas próximas pesquisas de opinião, sugere que a candidatura de Flávio, já carregada por diversas acusações, ficou ainda mais pesada. O risco agora é perder apoio para outros nomes da direita. Se essa migração se confirmar, sua candidatura estará ferida. Não de morte, mas o campo conservador poderá chegar enfraquecido ao segundo turno, já que dificilmente a família Bolsonaro aceitará deixá-lo de lado para apoiar outro candidato.

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Ainda assim, qualquer nome da direita que chegue ao segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva terá competitividade. O antipetismo continua forte. Sem novas revelações negativas contra Flávio, é possível que ele recupere parte do apoio antipetista numa disputa final. A história recente recomenda cautela. Mesmo depois do desgaste provocado pelo mensalão, Lula reelegeu-se em 2006. O eleitorado lhe impôs um susto no primeiro turno, quando Geraldo Alckmin, então governador de São Paulo, alcançou 40% dos votos, patamar que nenhum candidato do PSDB havia atingido até ali. Mas Alckmin, hoje vice de Lula, não conseguiu ampliar a base tucana e terminou o segundo turno praticamente com o mesmo índice obtido na primeira etapa.

A diferença é que a política brasileira está hoje submetida a uma polarização inédita. Parece pouco provável que eleitores dispostos, até aqui, a votar em Flávio Bolsonaro migrem para Lula. Os centristas, que costumam ter maior disposição para mudar de voto, ouvirão novamente a promessa lulista de um governo de união nacional. Mas também terão à disposição candidaturas de direita, como as dos ex-governadores Romeu Zema e Ronaldo Caiado, ambos fora do desgaste direto que atinge a família Bolsonaro.

Flávio tentava se apresentar como uma versão mais civilizada do bolsonarismo. Do outro lado, tampouco há garantia de que um quarto governo Lula caminhe mais ao centro. O fato concreto é que o quadro político mudou depois da revelação dos diálogos entre Flávio e Vorcaro. O financiamento do suposto filme, isoladamente, talvez não fosse um problema. O que chama atenção é o valor envolvido, fora da curva para produções nacionais, e a manifestação de apoio incondicional dada pelo senador ao então banqueiro, inclusive na véspera de sua prisão, quando tentava deixar o país.

As investigações e uma eventual delação de Vorcaro poderão esclarecer para onde foi tanto dinheiro e qual era a motivação real da operação além do filme. Não há sinal de que o país vá se livrar rapidamente da disputa entre direita e esquerda. Mas, se os candidatos de direita independentes tiverem habilidade, pode se abrir uma brecha para uma distensão política capaz de diferenciá-los dos extremismos que dominam o debate público.

Talvez o eleitorado esteja à espera de uma linguagem menos presa ao passado e mais voltada para o futuro. Talvez propostas concretas consigam superar o mal-estar produzido por uma polarização que deixou de ser de ideias e se tornou, sobretudo, de pessoas. De um lado e de outro, há dois líderes populares que exploram a rejeição recíproca para vencer uma guerra personalista, mais interessada na sobrevivência de seus grupos políticos do que no desenvolvimento do país.

O Brasil está há anos preso ao dilema de escolher o candidato menos ruim, em vez de discutir projetos. Pode ser que essa disputa autofágica, justamente por consumir seus próprios protagonistas, abra espaço para quem não está dentro dela encontrar um caminho alternativo.