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Opinião

Direita paga caro por seguir Bolsonaro

Episódio reacende debate sobre dependência do bolsonarismo e sucessão no campo conservador
Por O Correio de Hoje
18/05/2026 | 13:53

A revelação de que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro cumpre uma função pedagógica para o País. O episódio expõe, mais uma vez, a fragilidade moral e política do filho mais velho de Jair Bolsonaro para ocupar o posto de principal nome da direita na sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas vai além disso. Serve também como alerta definitivo ao campo conservador, que precisa decidir se continuará preso à engrenagem de escândalos produzida pelo bolsonarismo ou se terá coragem de romper sua dependência dos métodos do clã Bolsonaro.

Durante anos, uma parte expressiva da direita aceitou o bolsonarismo como se fosse um caminho obrigatório. O argumento é conhecido. Jair Bolsonaro ainda teria votos, capacidade de mobilização e força simbólica contra o lulopetismo. Nada disso, porém, autoriza um campo político inteiro a abrir mão de princípios, programa, decência pública e compromisso institucional apenas por conveniência eleitoral.

Opinião Correio

A adesão ao bolsonarismo nunca vem sozinha. Quem se associa a Jair Bolsonaro e a seus filhos recebe também seus hábitos, seus vícios e seus passivos. Recebe a mistura entre interesse público e conveniência privada, o culto familiar, a agressividade contra instituições, o desprezo pela liturgia democrática e a permanente confusão entre causa política e negócio particular. A toxicidade do bolsonarismo não é acidente de percurso. É parte essencial de seu funcionamento.

A direita democrática tem hoje uma chance que não deveria desperdiçar. Pode oferecer ao Brasil uma alternativa a Luiz Inácio Lula da Silva e ao seu projeto envelhecido sem se submeter novamente a Jair Bolsonaro. O governo lulopetista dá motivos suficientes para ser derrotado. É estatizante, anacrônico, aparelhado e incapaz de apresentar uma agenda moderna de crescimento, responsabilidade fiscal e eficiência administrativa. Mas os erros do petismo não purificam os erros da direita nem justificam a entrega do campo conservador a uma família que não consegue atravessar uma semana sem produzir novo desgaste público.

É preciso escolher. A direita quer ser força política adulta ou apenas torcida organizada do ressentimento? Para governar o País, não basta repetir slogans antipetistas. Será necessário demonstrar compromisso com a Constituição, respeito às instituições, responsabilidade fiscal, defesa da economia de mercado e padrões mínimos de decência. Esses valores não prosperam sob a tutela de Jair Bolsonaro nem sob a candidatura de seu herdeiro imediato, Flávio Bolsonaro.

O bolsonarismo tenta impor uma chantagem simples. Toda crítica ao clã, segundo essa lógica, ajudaria Luiz Inácio Lula da Silva. A realidade é o contrário. O que favorece Lula é justamente a incapacidade da direita de se libertar do bolsonarismo. Enquanto o campo conservador permanecer associado a personagens marcados por golpismo, escândalos recorrentes e negócios mal explicados, o petismo continuará explorando o medo de uma alternativa ainda pior. Nesse sentido, Jair Bolsonaro tornou-se um seguro de vida político para Luiz Inácio Lula da Silva.

A derrocada política de Jair Bolsonaro poderia ter inaugurado um processo de reconstrução da direita brasileira. Havia espaço para lideranças reformistas, moderadas, preparadas e comprometidas com a democracia constitucional. Em vez disso, muitos preferiram ajoelhar-se diante do espólio bolsonarista, como se o eleitorado do ex-presidente pudesse ser transferido por herança sanguínea. O resultado dessa submissão é Flávio Bolsonaro, personagem sem densidade política nem para ser poste do pai golpista, muito menos presidente da República.

Não haverá futuro respeitável para a direita enquanto a família Bolsonaro for tratada como destino. O conservadorismo democrático não precisa de sobrenomes ungidos, herdeiros automáticos ou chefes de clã. Precisa de partidos sérios, quadros preparados, programa consistente e coragem para abandonar aquilo que o degrada. Romper com o bolsonarismo terá custo. Mas custo maior é continuar arrastando o peso morto de um movimento que sequestrou a direita e a associou ao que há de mais rebaixado na vida pública brasileira.

A pergunta que resta é quantos escândalos ainda serão necessários para que essa evidência seja admitida. A direita tem diante de si uma oportunidade decisiva. Pode assumir seu lugar numa democracia madura, como força reformista, responsável e comprometida com a ordem constitucional. Ou pode continuar servindo de fachada para uma família que transformou o antipetismo em negócio político. Para voltar a merecer a confiança dos brasileiros, terá de romper com o bolsonarismo. Fora disso, será apenas cúmplice do desastre.