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Opinião

RN tem alívio, mas falta virada econômica

Redução da taxa para 7,6% no primeiro trimestre de 2026 revela melhora no mercado de trabalho, mas informalidade, baixa ocupação e fragilidade estrutural ainda impõem desafios
Por O Correio de Hoje
15/05/2026 | 15:15

A queda da taxa de desemprego no Rio Grande do Norte para 7,6% no primeiro trimestre de 2026 é uma boa notícia. Não há razão para negar o avanço. O índice é o menor já registrado para o período desde o início da série histórica da Pnad Contínua, em 2012. Em um Estado historicamente pressionado por baixa renda, informalidade, dependência do setor público e dificuldade de atrair investimentos produtivos, qualquer melhora real no mercado de trabalho deve ser reconhecida.

Mas reconhecer não significa se acomodar. O dado positivo precisa ser lido com seriedade, não com euforia. O RN melhorou, mas ainda está longe de viver uma virada econômica. A taxa caiu de 9,9% para 7,6% em um ano, retirando 39 mil pessoas da condição de desocupadas. O Estado encerrou o trimestre com cerca de 113 mil desempregados, número menor, mas ainda alto para uma economia que precisa crescer mais, produzir mais e oferecer ocupações de melhor qualidade.

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O retrato completo impõe cautela. A população ocupada foi estimada em 1,374 milhão de pessoas, mas caiu 2,7% em relação ao trimestre anterior. O nível de ocupação ficou em apenas 48,1%. Isso significa que a redução do desemprego não pode ser confundida automaticamente com explosão de empregos bons, formais e bem remunerados. Um mercado de trabalho saudável não se mede apenas por menos gente procurando vaga. Mede-se por mais gente trabalhando, com carteira, renda digna, produtividade e possibilidade de ascensão.

Há outro ponto que exige atenção. A informalidade recuou para 41,5%, o menor índice do Nordeste, abaixo da média regional de 48,9%. É um dado relevante. O RN, nesse aspecto, aparece melhor que seus vizinhos. Mas ainda está acima da média nacional, de 37,3%, e convive com cerca de 570 mil pessoas em situação de trabalho informal. É muita gente sem proteção adequada, sem estabilidade, sem previdência plena, sem crédito facilitado, sem horizonte seguro.

Também caiu o desalento. O número de pessoas que desistiram de procurar emprego passou de 73 mil para 60 mil em relação ao trimestre anterior e recuou frente aos cerca de 80 mil registrados no mesmo período de 2025. É sinal de algum retorno de confiança. Mas 60 mil desalentados ainda representam uma multidão silenciosa de potiguares que gostariam de trabalhar, mas não enxergam oportunidade, qualificação, experiência ou idade como portas abertas.

O RN precisa ter coragem de comemorar menos e planejar mais. Santa Catarina, melhor referência nacional no trimestre, registrou desemprego de 2,7%. Mato Grosso ficou com 3,1%. Espírito Santo, com 3,2%. Paraná, com 3,5%. Rondônia, com 3,7%. Não se trata de fingir que o RN parte das mesmas condições desses estados. Não parte. O Nordeste carrega dificuldades históricas de infraestrutura, industrialização, renda, crédito, produtividade e qualificação. Mas essa constatação não pode servir de desculpa eterna. Deve servir como chamado à ação.

O mundo atual não perdoa economias lentas. As cadeias globais estão sendo reorganizadas. A transição energética abre oportunidades enormes para o Nordeste. A inteligência artificial muda a lógica dos serviços. A indústria busca novos polos, mas exige infraestrutura, segurança jurídica, gente qualificada e ambiente competitivo. O turismo se sofisticou. A agricultura precisa de tecnologia. O comércio exige digitalização. O setor público precisa deixar de ser apenas pagador de folha e passar a ser indutor de desenvolvimento.

O Governo do Estado deve tratar o número do desemprego como janela de oportunidade, não como troféu de propaganda. O RN precisa de metas claras para formalização, atração de investimentos, melhoria da infraestrutura, concessões bem desenhadas, qualificação profissional, fortalecimento das cadeias produtivas, exportação, inovação e produtividade. Sem isso, o Estado continuará oscilando entre alívios estatísticos e frustrações estruturais.

As prefeituras também têm responsabilidade. Natal, Mossoró, Parnamirim, São Gonçalo, Caicó, Assú, Currais Novos, Pau dos Ferros e os demais polos regionais precisam enxergar emprego como política urbana, educacional, tecnológica e econômica. Licenciamento, mobilidade, ordenamento, turismo, capacitação, economia criativa e apoio ao pequeno empreendedor não são temas laterais. São parte da engrenagem que decide se o trabalhador terá oportunidade real ou apenas sobrevivência precária.

A classe política precisa subir o nível. O RN terá uma eleição decisiva em 2026, mas o debate público ainda gira demais em torno de alianças, rótulos, vaidades e polarizações. Quantos pré-candidatos têm um plano consistente para reduzir a informalidade? Quantos explicam como pretendem elevar a renda média? Quantos falam em preparar trabalhadores para uma economia digital, verde e mais competitiva? Quantos tratam emprego como projeto de Estado, e não como frase de palanque?

O setor empresarial também deve ser provocado. Reclamar de imposto, burocracia e custo Brasil é legítimo, mas insuficiente. Empresas precisam investir em gestão, tecnologia, capacitação, inovação, produtividade e novos mercados. O RN não mudará de patamar apenas por decisão do governo. Mudará quando governo, empresários, universidades, Sistema S, setor financeiro, municípios e trabalhadores operarem com visão comum de desenvolvimento.

O desemprego caiu. Isso importa. Mas ainda falta a virada. O RN não pode se contentar em ser o melhor do Nordeste em informalidade se continua atrás do Brasil. Não pode celebrar 7,6% como se estivesse perto dos melhores estados. Não pode aceitar 570 mil informais como paisagem normal. Não pode naturalizar um nível de ocupação de 48,1%.

O alívio existe. A virada, ainda não. E é exatamente agora, quando os números melhoram, que o Estado precisa decidir se vai apenas comemorar ou se vai construir as bases de uma economia mais produtiva, formal, inovadora e capaz de oferecer aos potiguares não só trabalho, mas futuro.