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Opinião

Politização do caso Ypê prejudica debate sanitário

Debate sobre medida da Anvisa saiu do campo técnico e foi arrastado para disputa ideológica nas redes sociais
Por O Correio de Hoje
13/05/2026 | 14:41

A decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária de suspender a fabricação, a venda e o uso de detergentes, sabões líquidos e desinfetantes de lotes da marca Ypê não deveria ter sido arrastada para a disputa política. A medida, adotada no último dia 7, nasceu de uma inspeção feita em parceria com a Vigilância Sanitária de São Paulo, que apontou descumprimento de etapas críticas de produção e risco de contaminação na unidade da Química Amparo, em Amparo, no interior paulista.

A reação da empresa foi dura. A fabricante classificou a resolução como “arbitrária e desproporcional” e afirmou possuir laudos independentes que comprovariam a segurança e a adequação dos produtos. Após recurso apresentado pela Química Amparo, a Anvisa suspendeu temporariamente os efeitos da proibição até a análise do caso pela diretoria colegiada, prevista para hoje. Ainda assim, manteve a recomendação para que os consumidores evitem o uso dos produtos até a conclusão da apuração. Mesmo com a liberação provisória, a Ypê informou que manterá linhas de produção paradas.

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Até esse ponto, nada foge ao funcionamento normal de uma relação entre órgão regulador e empresa regulada. A Anvisa fiscaliza, aponta riscos e adota medidas cautelares. A empresa, se entende ter sido prejudicada, recorre, apresenta provas e busca reverter a decisão. O problema começa quando uma discussão sanitária, que exige critério técnico e prudência, passa a alimentar mais uma guerra inútil entre direita e esquerda nas redes sociais.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o senador Cleitinho Azevedo e o empresário Luciano Hang, dono da Havan, saíram em defesa dos produtos e estimularam seu uso, em sentido contrário à orientação da agência. Do outro lado, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reagiu dizendo que “a Anvisa não tem lado A ou B” e lembrou que o diretor da área responsável pela suspensão foi indicado durante o governo de Jair Bolsonaro. Padilha também afirmou que a desinformação “coloca vidas em risco”.

O debate precisa voltar ao ponto certo. O que está em jogo não é preferência partidária, simpatia por uma marca ou desconfiança automática contra uma agência pública. A pergunta central é simples. Há risco para a população? Pela avaliação técnica feita pela Anvisa em conjunto com outras instituições, esse risco existe até que se prove o contrário ou até que a empresa demonstre ter corrigido os problemas apontados.

Cabe à Anvisa agir com absoluta transparência, explicar com clareza os fundamentos da resolução e afastar qualquer suspeita de motivação política. Também deve rever sua posição se a diretoria colegiada concluir que a empresa tem razão ou que as falhas foram sanadas. Esse é o caminho institucional adequado.

A Anvisa é uma agência reguladora com autonomia decisória. Suas orientações não devem ser tratadas como palanque, nem desobedecidas por conveniência ideológica. Ao cidadão comum, seja ele de direita ou de esquerda, resta a atitude mais sensata em temas de saúde pública. Seguir as recomendações técnicas até que o caso seja definitivamente esclarecido.