Álvaro Dias (PL) tentou encerrar a crise aberta em torno da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) e mudou o tom sobre o futuro da instituição. Em entrevista ao programa Contraponto, da 96 FM, nesta quarta-feira 13, o ex-prefeito de Natal e pré-candidato ao Governo do RN negou ter defendido privatização ou federalização da instituição e afirmou que a universidade será mantida sob responsabilidade do Estado caso ele seja eleito.
A declaração veio depois de forte reação política provocada por falas dadas em Mossoró na última sexta-feira 8. Na ocasião, Álvaro foi questionado sobre propostas envolvendo federalização ou privatização da Uern e disse que o tema precisava ser estudado por sua equipe técnica, sem descartar a possibilidade. A fala abriu espaço para críticas de adversários, especialmente de Allyson Bezerra (União) e Cadu Xavier (PT), que passaram a acusá-lo de deixar em aberto o futuro da universidade. Veículos locais registraram que a declaração provocou reação negativa e levou Álvaro a gravar vídeos negando a intenção de mexer no controle estadual da instituição.

No Contraponto, Álvaro afirmou que sua entrevista em Mossoró foi “deformada, deturpada, distorcida” por pessoas ligadas a Allyson e Cadu. “Nunca, em nenhum momento, eu falei em privatizar ou federalizar a Uern”, disse. Segundo ele, a referência feita era apenas a estudos técnicos para melhorar e modernizar a universidade. O pré-candidato classificou a reação como “fake news”, disse ter ficado indignado e afirmou que sua equipe chegou a avaliar a possibilidade de judicializar declarações que, segundo ele, colocaram palavras em sua boca.
A Universidade do Estado do Rio Grande do Norte é um dos temas mais sensíveis da política estadual, sobretudo em Mossoró, onde está sua sede histórica. Criada em 1968, a universidade nasceu com a missão de interiorizar o ensino superior no Rio Grande do Norte e hoje mantém presença em Mossoró, Natal, Assu, Pau dos Ferros, Patu e Caicó, além de polos e ações de educação a distância. A própria instituição informa que já formou dezenas de milhares de profissionais e se consolidou como uma das principais estruturas públicas de ensino superior do Estado.
Na entrevista, Álvaro buscou se reposicionar como defensor da universidade. Chamou a Uern de “patrimônio do Estado do Rio Grande do Norte”, disse que a instituição não pertence apenas a Mossoró e destacou que ela já formou mais de 60 mil alunos. “Eu jamais iria pensar em federalizar ou, muito menos, em privatizar a Uern”, afirmou. Questionado se manteria a universidade como está, respondeu que sim, mas acrescentou que pretende ampliar investimentos, modernizar a estrutura e, se possível, fortalecer os campi avançados no interior.
O recuo ocorre em um momento em que adversários tentam explorar a simbologia da Uern como instrumento de interiorização, formação de professores e ascensão social. Allyson Bezerra, ex-prefeito de Mossoró e também pré-candidato ao Governo, reagiu afirmando que pretende “governar junto com a Uern” e que não aceita discussão sobre venda, privatização ou mudança que enfraqueça o vínculo estadual da universidade. A fala reforçou a tentativa de Allyson de ocupar o espaço de defensor da instituição no território onde ela tem maior peso político.
“Para mim, a Uern é inegociável, para que ela continue sendo pública e gratuita para o cidadão. Ninguém venha, dentro do nosso grupo político, da nossa base política, aqueles que estão disputando mandato de deputado estadual, federal, seja quem for, ninguém venha falar para Allyson sobre venda da Uern ou privatização da Uern, porque é um não. É um não taxativo, é um não claro”, declarou Allyson em entrevista à rádio Difusora na segunda-feira 11.
Além da Uern, Álvaro também foi questionado sobre a Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern). Nesse ponto, adotou tom mais cauteloso. Disse que, a princípio, não pretende privatizar a companhia, mas defendeu um estudo aprofundado e afirmou que a empresa presta serviço deficitário. Segundo ele, sua equipe técnica estima que seriam necessários cerca de R$ 10 bilhões em investimentos para que a Caern recupere capacidade de atendimento e ofereça serviço de excelência ao Estado.
Disputa eleitoral
A entrevista também serviu para Álvaro reforçar a tese de polarização na disputa estadual. Ele disse ter certeza de que a eleição no RN será marcada pelo confronto entre direita e esquerda, como ocorreu, segundo ele, na eleição municipal de Natal. O pré-candidato comparou o quadro atual à disputa em que o atual prefeito Paulinho Freire (União) saiu de patamar baixo nas pesquisas, foi ao segundo turno contra Natália Bonavides (PT) e venceu a corrida pela Prefeitura do Natal.
Ao ser questionado se não estaria tentando escantear Allyson, que aparece bem nas pesquisas e disputa votos no campo de centro-direita, Álvaro foi direto. Disse ver o ex-prefeito de Mossoró “mais como um candidato de esquerda” do que de direita. Para ele, as bandeiras defendidas por Allyson e suas posições recentes apontam nessa direção. A declaração mira justamente o esforço de Allyson para se apresentar como nome de centro, pragmático e aberto a apoios de diferentes campos.
Álvaro também tratou da chapa majoritária de seu grupo. Confirmou Babá Pereira (PL) como pré-candidato a vice e defendeu a presença do ex-presidente da Federação dos Municípios (Femurn) como complemento à sua própria trajetória mais concentrada em Natal. Disse que Babá conhece prefeitos, municípios e lideranças do interior, enquanto ele, por ter sido prefeito da capital por seis anos, ficou mais absorvido pela administração municipal.
Sobre o Senado, Álvaro afirmou que a chapa está fechada com Styvenson Valentim (Podemos) e Coronel Hélio (PL). Questionado sobre informações de que Styvenson preferiria ter Flávio Rocha (Novo) como companheiro de chapa, disse que a indicação de Hélio foi uma decisão do PL e que o grupo caminhará com os dois nomes definidos. Também minimizou a ausência de Styvenson em agendas recentes, afirmando que o senador tem estilo próprio de fazer política e atua visitando obras viabilizadas com recursos de seu mandato.
Obras
No bloco final, Álvaro defendeu a engorda de Ponta Negra, classificando a obra como “revolucionária”. Acusou o PT de ter usado o Idema para negar repetidamente licenças ao projeto e disse que a intervenção salvou o principal cartão-postal de Natal. Também afirmou que o acúmulo de água em dias de chuva estava previsto no projeto e acusou adversários de tentarem descaracterizar a obra.
O pré-candidato ainda acusou o governo federal de reter mais de R$ 50 milhões em recursos de obras em Natal, citando o Pontilhão de Cidade Nova, a Orla Urbana e o Hospital Municipal. Sobre o hospital, inaugurado no fim de sua gestão mas ainda fechado, disse que Paulinho Freire está fazendo ajustes, comprando equipamentos e concluindo o centro cirúrgico.