As críticas do vice-governador Walter Alves (MDB) e do deputado estadual José Dias (PL), reportadas em matéria de O Correio de Hoje da última sexta-feira, convergem em um ponto central: a acusação de que o Governo Fátima Bezerra (PT) não estaria apresentando com transparência o tamanho real da crise fiscal do Rio Grande do Norte. Walter afirmou que desistiu de assumir o Executivo após analisar os dados do Estado e concluir que herdaria uma situação mais grave do que a informada inicialmente pelo governo. Segundo ele, houve “quebra de confiança” quando a administração teria minimizado, em reunião, a dívida dos consignados dos servidores. O passivo, que ele disse ter ouvido que seria pequeno, foi depois reconhecido pelo próprio governo em R$ 363,3 milhões, referentes ao período de maio de 2023 a março de 2026.
Walter também citou indicadores fiscais para sustentar a decisão de não assumir o cargo. Segundo ele, o RN virou de 2025 para 2026 com rombo de R$ 3 bilhões e poderia acumular novas dívidas. Dados do Tesouro Nacional apontaram que o Estado comprometeu 55,73% da Receita Corrente Líquida ajustada com pessoal no segundo quadrimestre de 2025, acima do limite de 49% previsto pela Lei de Responsabilidade Fiscal.

José Dias adotou tom semelhante. O deputado afirmou que o próximo governador herdará um quadro de “caos” fiscal e administrativo, classificou a situação como “dramática” e disse que os números conhecidos publicamente não revelariam toda a dimensão do problema. Para ele, “o que é mais grave” seria “não revelar tudo”, porque a administração preferiria manter “uma área obscura” nas contas. José Dias também citou problemas no Walfredo Gurgel, atrasos com profissionais, falta de medicamentos e consignados para reforçar a crítica à gestão.
Silêncio de Raimundo amplia desgaste governista
O silêncio do secretário do Gabinete Civil do Governo do RN, Raimundo Alves, diante das críticas do vice-governador Walter Alves, aumentou o desgaste político da gestão Fátima Bezerra. Procurado para comentar as acusações de que o governo teria escondido a real dimensão da crise fiscal do Estado, Raimundo preferiu não se posicionar.
A omissão chama atenção porque parte justamente do titular de uma das funções mais políticas do governo. O Gabinete Civil é responsável pela articulação, pela sustentação institucional e pela resposta em momentos de pressão. Quando o principal anteparo político da governadora evita defender publicamente a gestão, surge uma pergunta incômoda: as críticas de Walter são indefensáveis?
O silêncio ganha ainda mais peso porque Walter falou em “quebra de confiança”, dívida dos consignados, rombo fiscal e falta de transparência nas contas públicas. Diante de acusações dessa gravidade, a ausência de resposta acaba funcionando quase como um dado político.
O episódio reforça uma percepção de bastidor: a defesa do Governo Fátima tem sido feita por poucos. Se não fosse a atuação do ex-secretário da Fazenda e pré-candidato ao governo Cadu Xavier, além dos deputados Francisco do PT e Isolda Dantas e da vereadora Samanda Alves, a gestão petista estaria praticamente órfã de defesa pública.
Cadu tem negado colapso fiscal, defendido os salários em dia e sustentado que o Estado reorganiza as contas. Mas muitos secretários preferem a discrição. Ao se calar, Raimundo deixou o governo sem defesa no momento em que mais precisava explicar.
Álvaro expõe falta de posição própria
O ex-prefeito de Natal Álvaro Dias abriu uma crise política em Mossoró ao deixar em aberto temas sensíveis como a federalização da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e a privatização da Caern. Questionado sobre as propostas, o pré-candidato ao Governo do RN não apresentou posição clara. Disse que os assuntos exigiam “aprofundamento e estudo técnico” e repassou a assessores a tarefa de avaliar os caminhos.
O episódio alimentou dúvidas sobre o preparo e a convicção política de Álvaro. Depois de já ter elogiado Luiz Inácio Lula da Silva e se declarado aliado do presidente, o ex-prefeito, ao entrar no Partido Liberal, passou a tentar acomodar sua trajetória às bandeiras da direita e ao programa defendido pelo senador Rogério Marinho, líder do partido no RN e no Senado.
A dificuldade apareceu justamente em dois temas explosivos. A Uern é patrimônio de Mossoró e do interior. A Caern presta serviço básico em todo o Estado. Mesmo assim, Álvaro preferiu não dizer se é contra ou a favor, deixando a resposta para estudos técnicos. A reitora Cicília Maia reforçou que a Uern consome apenas 3,08% do orçamento estadual e forma mais de 90% dos professores estaduais e municipais da região de Mossoró.
O deslize sugere mais que cautela. Quando um pré-candidato terceiriza sua opinião sobre Uern e Caern, a pergunta sobre preparo passa a ser central.