Na reta final da gestão da governadora Fátima Bezerra (PT), a fuga de cinco detentos da Penitenciária Estadual de Alcaçuz, registrada no sábado 2, recoloca sob pressão a condução do sistema penitenciário do Rio Grande do Norte, área que vinha sendo apontada como uma das mais estabilizadas ao longo dos últimos anos.
O cenário atual contrasta com o passado recente do estado. Após o massacre ocorrido em 2017, durante o governo Robinson Faria, o sistema prisional enfrentava uma situação crítica. Ao longo dos dois mandatos seguintes, foi implementado um processo de reorganização que trouxe maior controle e reduziu episódios extremos. Ainda assim, o caso mais recente evidencia que vulnerabilidades permanecem.

A fuga aconteceu durante a madrugada e só foi identificada horas depois, durante a contagem de presos. Os detentos deixaram a unidade a partir de uma cela localizada no Pavilhão 1, que apresentava deterioração estrutural, com ferragens expostas e falhas no sistema de ventilação. A partir desse ponto, atravessaram áreas internas da unidade e utilizaram uma corda improvisada, conhecida como “teresa”, para escalar o muro principal, com mais de cinco metros de altura. As condições climáticas, com registro de fortes chuvas, podem ter contribuído para a redução da vigilância.
A unidade não registrava fugas há quase cinco anos, o que acentuou a repercussão do episódio. O secretário de Administração Penitenciária, Helton Edi Xavier, classificou o caso como uma “surpresa”. No entanto, as condições reveladas após o ocorrido indicam a existência de problemas já apontados anteriormente.
O Sindicato dos Policiais Penais do Rio Grande do Norte detalhou uma série de falhas. A presidente da entidade, Vilma Batista, afirmou que a cela de origem da fuga estava “totalmente deteriorada, sem vigilância aproximada e sem monitoramento eletrônico eficaz”. Segundo ela, embora existam câmeras instaladas, parte dos equipamentos não funciona adequadamente. Em algumas situações, as imagens são captadas, mas não podem ser acompanhadas em tempo real devido a monitores quebrados.
Outro fator destacado foi a limitação de efetivo. “Temos um efetivo extremamente baixo. Em muitos casos, um único policial precisa monitorar mais de 500 câmeras. Isso é inviável”, declarou Vilma. A dirigente também apontou que guaritas permanecem desativadas há anos, o que reduz a capacidade de vigilância externa e amplia riscos de ocorrências.
A insuficiência de pessoal surge como um dos principais fatores associados às falhas operacionais. A limitação impacta diretamente a prevenção, o monitoramento e a resposta a incidentes dentro do sistema prisional.
Apesar de avanços registrados ao longo da gestão, inclusive com apoio de ações estruturantes e integração entre forças de segurança, o episódio evidencia que a estabilidade do sistema depende de manutenção contínua. A ocorrência reforça a necessidade de intervenções voltadas à recomposição de efetivo, recuperação de estruturas físicas, funcionamento adequado de equipamentos e revisão de protocolos de monitoramento.
A detecção tardia da fuga, apenas após horas do ocorrido, também aponta fragilidades nos mecanismos de fiscalização interna. Em ambientes de alto risco, a eficiência da rotina operacional é determinante para evitar incidentes.
Em um contexto de ano eleitoral, a situação amplia o nível de atenção sobre a área de segurança pública. A manutenção dos avanços registrados depende da capacidade de resposta diante de episódios que expõem falhas ainda existentes no sistema penitenciário estadual.