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Opinião

EAD forma professores sem preparo

Resultados do Enade das Licenciaturas mostram que maioria dos estudantes não atinge nível adequado, com cenário mais crítico nos cursos a distância e em matemática
Por O Correio de Hoje
22/05/2026 | 15:40

A baixa qualidade da formação docente no Brasil voltou a aparecer em números difíceis de relativizar. Os resultados recentes do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes das Licenciaturas revelam um quadro grave entre os futuros professores do país. Sem profissionais minimamente preparados, nenhuma escola bem equipada, nenhum recurso tecnológico moderno e nenhuma ferramenta digital de última geração será capaz de produzir a melhora educacional de que o Brasil precisa.

Pelos dados do Enade das Licenciaturas, 42,2% dos estudantes desses cursos estão abaixo do nível considerado básico. Outros 37,5% aparecem exatamente no limite desse patamar. Apenas 20,2% alcançam desempenho adequado. Em matemática, área decisiva para carreiras ligadas à tecnologia e à engenharia, o resultado é ainda mais preocupante. Só 5,6% chegam ao nível adequado.

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A educação à distância tem peso direto nessa deterioração. Os alunos de licenciatura matriculados no EAD puxam as médias para baixo. Mais da metade deles está abaixo do nível básico, enquanto apenas 12% apresentam desempenho adequado. A promessa de que a expansão dos cursos à distância, hoje responsáveis por 70% da oferta de vagas em licenciaturas, ajudaria a acelerar a formação de professores para enfrentar os problemas da educação brasileira mostrou-se ilusória.

Os dados por curso reforçam a dimensão do problema. Entre os matriculados em matemática no EAD, 67% estão abaixo do nível básico. Em pedagogia, são 54%. Em letras/português, 47%. Em História, 40%. A avaliação da ONG Todos Pela Educação resume a gravidade do quadro. “Mais de 60% dos estudantes em cursos de licenciatura à distância estão matriculados em cursos nos quais nem 50% dos estudantes atingem o corte mínimo estabelecido”, afirma a entidade.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva acertou ao alterar os critérios de avaliação para produzir um diagnóstico mais fiel da formação docente. As provas deixaram de ser genéricas, passaram a medir aspectos relacionados ao exercício da docência e se tornaram anuais. Também foi correta a edição, no ano passado, do decreto que proibiu a formação de licenciados em cursos 100% à distância.

O problema é que a disputa regulatória ainda não terminou. Persistem riscos de recuo nas regras sobre a ampliação das aulas presenciais. O tema está em discussão no Conselho Nacional de Educação e enfrenta forte resistência do setor privado. Até aqui, o Ministério da Educação ainda não adotou uma posição suficientemente firme.

A formação presencial tem desempenho melhor, mas também está longe de apresentar um quadro confortável. Em pedagogia, 75% dos estudantes ficam acima do nível básico. Em letras/português, 73%. Em História, 89%. Ainda assim, as lacunas permanecem. Em matemática, 46% não atingem a proficiência mínima. No conjunto da educação presencial, apenas três em cada dez alunos chegam ao desempenho adequado. Outros 42% ficam no limite do nível básico e 26% estão abaixo dele.

Para a Todos Pela Educação, os resultados tornam urgente o fortalecimento das políticas de formação inicial de professores. “Embora o Enade das Licenciaturas/Prova Nacional Docente ainda esteja em consolidação e apresente limitações, os resultados indicam fragilidades que requerem respostas estruturais do poder público”, diz a organização.

Cabe ao Ministério da Educação transformar esse diagnóstico em ação. A pasta precisa promover as mudanças necessárias e intervir nas instituições que apresentam desempenho abaixo do aceitável. A recuperação da qualidade do ensino brasileiro começa pela formação de quem estará em sala de aula. Sem professores bem preparados, qualquer promessa de avanço educacional continuará sendo apenas promessa.