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Opinião

Discurso anticorrupção de Milei entra em xeque

Desgaste político cresce após denúncias envolvendo aliados e aumento da desaprovação popular na Argentina
Por O Correio de Hoje
06/05/2026 | 17:17

O presidente argentino Javier Milei enfrenta desgaste. Levantamentos recentes indicam que mais de 60% da população manifesta opinião negativa sobre a administração. No Índice de Confiança no Governo da Universidade Torcuato Di Tella, o resultado atual figura como o segundo mais baixo desde o início do mandato, superado apenas pelo registrado em setembro do ano passado, período marcado pela repercussão de denúncias envolvendo Karina Milei, irmã do presidente e atual secretária-geral da Presidência.

O ambiente político ganhou novos contornos com suspeitas dirigidas ao porta-voz e chefe de gabinete, Manuel Adorni. As acusações apontam possível enriquecimento incompatível com sua posição. Episódio ocorrido em março ampliou a pressão. Bettina Angeletti, esposa de Adorni e sem vínculo formal com o governo, integrou a comitiva que utilizou aeronave oficial em viagem a Nova York ao lado do presidente. O caso passou a ser citado como exemplo de possível mistura entre interesses públicos e privados.

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Práticas dessa natureza não são incomuns na política latino-americana. Ao disputar a Presidência, Milei adotou discurso duro contra a corrupção e prometeu enfrentar o que classificava como vícios arraigados das administrações anteriores. A mensagem encontrou respaldo em um eleitorado exausto após anos de instabilidade econômica sob governos peronistas.

No poder, o presidente implementou medidas de ajuste fiscal, com redução do tamanho do Estado e cortes de subsídios. O impacto foi imediato. A inflação desacelerou de forma significativa e o país voltou a registrar superávits primários consecutivos em 2024 e 2025, resultado que não era alcançado desde 2008.

Esse conjunto de ações garantiu respaldo político. Nas eleições legislativas realizadas no fim do ano passado, o partido de Milei, A Liberdade Avança, saiu vencedor, sinalizando apoio às reformas em curso.

O avanço de denúncias envolvendo integrantes do núcleo do governo, no entanto, cria um novo obstáculo. A continuidade de medidas duras depende da confiança pública. Mesmo diante das acusações, Milei tem mantido defesa de Adorni e direcionado críticas à oposição, que também apresenta índices de rejeição elevados.

O contexto coloca em evidência um ponto sensível. A adesão da população às políticas de austeridade esteve ligada à promessa de rigor no combate à corrupção. A percepção de tratamento diferenciado a aliados pode comprometer esse equilíbrio, especialmente em um momento em que o custo de vida segue como principal preocupação dos argentinos.