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Opinião

Decisão de Trump favorece Flávio

Decisão dos Estados Unidos sobre PCC e Comando Vermelho amplia debate sobre soberania, segurança e impactos econômicos em meio à disputa política brasileira
Por O Correio de Hoje
29/05/2026 | 15:54

A classificação do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como grupos terroristas especialmente designados pelo governo dos Estados Unidos abre uma discussão de alta complexidade para o Brasil. Trata-se de uma medida com implicações diplomáticas, jurídicas, econômicas e de segurança. Quando esse tipo de tema entra no ambiente eleitoral, porém, quase sempre perde densidade. A tendência é que o debate seja engolido por leituras apressadas, slogans ideológicos e disputas de narrativa. O perigo, nesse caso, é o país pagar uma conta longa, em várias frentes, por uma decisão tomada fora de suas fronteiras.

O governo brasileiro tentava impedir esse movimento havia mais de um ano. Nesse período, funcionários americanos de diferentes níveis passaram pelo Itamaraty e pelo Ministério da Justiça em busca de informações sobre as facções brasileiras. A posição do Brasil foi a de mostrar disposição para cooperar no combate financeiro e operacional a esses grupos, mas sem aceitar a classificação formal como organizações terroristas. A tentativa era manter a cooperação sem abrir uma porta que pudesse gerar efeitos mais amplos sobre a soberania nacional e sobre a relação institucional entre os dois países.

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As objeções brasileiras não se limitam ao argumento da soberania, embora ele seja central. Há preocupações concretas na área econômica. A nova abordagem pode criar dificuldades adicionais para concessão de vistos, gerar entraves a negócios de empresas brasileiras com companhias de outros países e ampliar a percepção de risco sobre operações ligadas ao Brasil. Também existe receio de que Donald Trump passe a tratar o território brasileiro com a mesma lógica já usada em ameaças feitas a outros países da América do Sul, inclusive com a possibilidade de incursões militares sob a justificativa de atingir estruturas do PCC ou do CV. Seria uma agressão grave à soberania nacional.

A decisão surpreendeu o governo brasileiro e mexe até na engrenagem tradicional de cooperação entre as instituições. Ao enquadrar as facções no campo do terrorismo, o assunto deixa de circular prioritariamente por canais como FBI e DEA, a agência americana de combate às drogas, historicamente mais próximos do Ministério da Justiça e da Polícia Federal. Passa a entrar em uma área de atribuição da CIA, com outra lógica de atuação e menos abertura para a troca de informações nos moldes em que o Brasil vinha trabalhando.

“Essa decisão é um desastre e prejudicará imensamente o enfrentamento a essas organizações e a cooperação entre os países, a que o Brasil nunca se negou”, reagiu ontem o ex-secretário nacional de Justiça Mario Sarrubbo.

O problema é que pouco disso tende a sobreviver ao debate eleitoral. O fator decisivo, politicamente, é o tempo da decisão. Ela veio dois dias depois do rápido encontro entre Donald Trump e Flávio Bolsonaro, que concedeu entrevista defendendo justamente a classificação das facções brasileiras como terroristas. Para a política, muitas vezes, a sequência dos fatos vale mais do que a complexidade dos fatos.

Numa leitura superficial de um assunto espinhoso, parte do eleitorado favorável ao endurecimento contra facções criminosas tende a celebrar a medida americana e a enxergar em Flávio um personagem relevante no convencimento de Trump. É o tipo de episódio em que a narrativa pode se impor sobre a apuração objetiva, até porque a Casa Branca não detalhou a pauta da conversa entre os dois nem esclareceu se houve espaço para discussão de algum tema mais sério.

Para o governo brasileiro, reagir à decisão é entrar em terreno movediço. Um recurso formal ou uma contestação mais dura podem ser explorados politicamente como sinal de leniência, ou até de proteção indireta a facções que dominam territórios e impõem uma espécie de tirania sobre áreas cada vez maiores das cidades brasileiras. Num ambiente eleitoral, essa leitura pode ser devastadora para Lula.

Aceitar calado, esperando que a classificação produza efeitos apenas simbólicos e não avance para consequências concretas, também é uma aposta perigosa. O governo Trump tem se mostrado imprevisível, voluntarioso e disposto a ofensivas unilaterais contra países soberanos. Quando uma decisão dessa natureza é tomada, o problema não está apenas no anúncio, mas no uso político e operacional que poderá vir depois.

A foto com Trump, isoladamente, não tinha força para afastar Flávio Bolsonaro do desgaste provocado pelo caso Master. A decisão desta quinta-feira, no entanto, muda a temperatura do jogo. O tema da segurança pública ganha uma nova camada internacional, com evidente potencial de exploração positiva pela direita e risco adicional de desgaste para Lula. No tempo da campanha, às vezes o calendário pesa tanto quanto o conteúdo. Aqui, o timing da Casa Branca ajuda Flávio.