BUSCAR
BUSCAR
Opinião

Diplomacia não pode servir ao ego de Lula

Ao manter o embaixador brasileiro fora de Buenos Aires, Lula reduz o nível da representação diplomática sem apresentar prazo, critério ou resultado esperado para a medida
Por O Correio de Hoje
10/08/2026 | 18:28

O presidente argentino Javier Milei veio ao Brasil para participar do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro e, ao lado do adversário de Luiz Inácio Lula da Silva, atacou autoridades brasileiras. Chamou Lula de “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes de “lixo careca”. A reação inicial do Itamaraty foi adequada. O embaixador Julio Bitelli foi convocado, e o governo brasileiro formalizou seu protesto ao representante argentino. Brasília delimitou assim uma fronteira entre a disputa eleitoral brasileira e o comportamento esperado de um chefe de Estado estrangeiro. O passo seguinte, porém, foi mais grave. O governo decidiu manter Bitelli fora de Buenos Aires e reduzir a representação brasileira ao nível de encarregado de negócios.

São medidas diferentes. Convocar o embaixador serviu para registrar a gravidade da ingerência e sinalizar desagrado sem impedir uma normalização. Deixar o posto sem seu titular indefinidamente exige outra justificativa. O governo pode pressionar Milei, mas uma pressão diplomática só se sustenta se estiver orientada para algum resultado concreto. Brasília, até agora, não disse o que pretende obter do governo argentino nem como avaliará se a decisão produziu efeito.

André Mendonça dá dez dias para o governo Lula detalhar despesas com publicidade institucional após questionamento apresentado pelo PL.

Também não está claro o que Milei teria de fazer para que Bitelli retornasse. Pedir desculpas? Parar de intervir na disputa brasileira? Cumprir alguma condição definida pelo Itamaraty? Não há prazo, critério ou mecanismo de revisão anunciado. Sem esses elementos, a represália passa a depender do calendário eleitoral e das provocações do presidente argentino. Cada novo ataque torna politicamente mais difícil para Lula recuar. Quanto mais próxima a eleição, maior a possibilidade de o retorno do embaixador ser apresentado como capitulação. Milei passa a influenciar o custo político da decisão brasileira.

Esse seria um problema menor se envolvesse apenas protocolo. Não envolve. A embaixada continua funcionando e os contatos técnicos permanecem, mas um encarregado de negócios não dispõe do mesmo acesso político nem da mesma autoridade de um embaixador para conduzir impasses aos centros de decisão. A perda ocorre numa relação economicamente importante. A Argentina está entre os maiores mercados do Brasil, especialmente para a indústria. Questões comerciais e energéticas, muitas delas tratadas no Mercosul, exigem negociação política de alto nível.

Ao retirar Bitelli de Buenos Aires, Lula reduziu o acesso brasileiro ao governo argentino. Esse custo poderia ser defensável se estivesse associado a uma vantagem clara para o País. Como Brasília não apresenta esse ganho, a utilidade mais evidente do conflito aparece dentro do Brasil. Milei oferece aos estrategistas petistas um adversário associado a Jair Bolsonaro e Donald Trump e ajuda a construir Lula como defensor da “soberania”. Milei também tira proveito da disputa ao apresentar Lula como expressão do socialismo regional. Ambos recolhem dividendos políticos, mas as responsabilidades não são iguais. Milei provocou. Lula decidiu usar a representação diplomática brasileira numa controvérsia que produz mais efeito eleitoral do que resultado diplomático.

A retórica da soberania ainda expõe uma seletividade conveniente. Lula visitou a ex-presidente argentina Cristina Kirchner quando ela estava em prisão domiciliar por corrupção e sugeriu que era vítima de perseguição política. A Argentina não rebaixou por isso sua relação com o Brasil. Lula também apoiou o peronista Sergio Massa contra Milei na eleição argentina de 2023. Nada disso legitima a interferência de Milei na campanha brasileira, mas evidencia a contradição de exigir do adversário uma contenção que Lula não praticou diante de aliados.

Bitelli deveria retornar a Buenos Aires. Se o governo considera útil mantê-lo afastado, precisa informar qual objetivo pretende atingir, em que prazo reavaliará a medida e qual comportamento argentino permitirá encerrá-la. A firmeza diplomática deve ser medida pela defesa dos interesses nacionais, não pela duração de uma retaliação. Enquanto mantiver uma resposta sem finalidade pública definida, Lula dará a Milei influência sobre o nível da representação brasileira e reduzirá os instrumentos para administrar uma relação bilateral relevante.

A represália serve com clareza aos interesses políticos e ao ego de Lula. O que continua sem explicação é de que maneira ela serve ao Brasil.