Cinco meses depois de iniciar a guerra contra o Irã, o presidente americano Donald Trump ainda pode ordenar novos ataques e destruir alvos iranianos, mas já não controla o rumo político do conflito. Washington alterna bombardeios, ameaças e tréguas, enquanto a solução para o Estreito de Ormuz passou a depender de entendimentos entre Teerã, Omã e os países do Golfo. A diferença expõe o problema central da campanha americana. Destruir é uma demonstração de força. Converter destruição em resultado político é outra coisa.
Trump entrou na guerra acreditando que a superioridade militar dos Estados Unidos tornaria essa passagem rápida. Israel ajudou a alimentar a expectativa de que a decapitação do regime levaria à sua queda. O presidente americano ignorou advertências sobre Ormuz, consultou pouco os aliados e nunca explicou de forma convincente como bombardeios fariam Teerã capitular. Confundiu fragilidade militar com disposição para ceder. O Irã sofreu danos enormes, mas preservou capacidade suficiente para impor custos que Washington não incorporou aos cálculos iniciais.

A redução das ambições americanas mostra o tamanho desse erro. Em março, Trump falava em “rendição incondicional”, na destruição do programa nuclear iraniano e de sua rede de milícias. Depois, chegou a anunciar a destruição da civilização iraniana. Hoje, a prioridade reconhecida pela Casa Branca é bem mais estreita. Reabrir Ormuz. Uma guerra lançada para remodelar o comportamento do Irã terminou colocando os Estados Unidos diante da necessidade de negociar a recuperação de uma liberdade de navegação existente antes do primeiro ataque.
As forças iranianas ao longo da costa foram duramente atingidas por Washington, mas Teerã manteve meios suficientes para impedir que o risco marítimo retornasse aos níveis anteriores ao conflito. Não precisa alcançar equivalência militar com os Estados Unidos para conservar poder sobre o estreito. A campanha começou com Washington tentando reduzir severamente a capacidade iraniana de coerção. Agora, a discussão é sobre quanto dessa capacidade terá de ser tolerada para que o tráfego volte a funcionar.
Trump tornou o problema maior ao transformar imprevisibilidade em rotina. Ameaças presidenciais produzem efeito quando existe receio de que sejam cumpridas. Meses de ultimatos, pausas, negociações e anúncios prematuros de acordos desgastaram essa percepção. Cada recuo torna o próximo menos inesperado e diminui o peso coercitivo das palavras da Casa Branca. Para recuperá-lo, Trump precisa ameaçar mais ou voltar a atacar, exatamente o ciclo que prometia superar.
Arábia Saudita e outros governos do Golfo continuam dependentes dos Estados Unidos, mas procuram reduzir a exposição às limitações da proteção americana. Negociam com Teerã, buscam novas parcerias militares e investem em caminhos alternativos a Ormuz. É uma escolha racional para países sujeitos ao alcance dos mísseis iranianos. Para Washington, representa um custo que não aparece na contagem dos ataques. Seus aliados passam a organizar a própria segurança admitindo que a hiperpotência talvez não consiga impor o resultado prometido.
China e Rússia também enxergam a oportunidade. Ambas têm incentivos para sustentar a capacidade do Irã e aproveitar a dispersão americana. Recursos militares empregados no Golfo deixam de estar disponíveis para outros teatros.
Nada disso autoriza concluir apressadamente que os Estados Unidos estejam em declínio. O Irã está economicamente exaurido, perdeu parte de sua rede regional e sofreu danos militares severos. O bloqueio ainda pode levá-lo a moderar exigências. Washington conserva uma capacidade de escalada que Teerã não tem como igualar.
É justamente essa desigualdade que torna o impasse tão revelador. A maior potência militar do mundo continua capaz de impor ao Irã perdas muito superiores às que sofre, mas procura uma saída para uma guerra que deveria ter acabado em semanas. A força americana segue formidável. O que se deteriora é sua capacidade de organizar as expectativas dos outros. Uma hiperpotência começa a pagar caro antes mesmo de perder quando seus aliados compram proteção contra suas escolhas e seus adversários deixam de moldar o próprio comportamento pelo temor de suas ameaças.