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Coluna Opinião

Explicações do próprio marqueteiro acendem alerta na campanha de Álvaro

Justificativas de Alexandre Macedo expõem candidatura pressionada pelo legado administrativo, pelas pesquisas e pelo cenário nacional
Redação
13/08/2026 | 14:27

As explicações apresentadas por Alexandre Macedo, marqueteiro do ex-prefeito de Natal Álvaro Dias (PL), em entrevista à FM Universitária, para o desempenho do candidato no primeiro debate acenderam um alerta. Macedo afirmou que Álvaro havia ensaiado para falar em pé, diante de um púlpito, mas encontrou uma poltrona no estúdio. A janela com o intérprete de Libras também teria dificultado a visualização do cronômetro.

Os obstáculos podem ter interferido na atuação. O sinal político, porém, está no fato de o próprio responsável pela campanha precisar justificá-la. Macedo não é um observador externo: prepara o candidato, acompanha as pesquisas e conhece as dificuldades internas da candidatura.

Álvaro Dias durante debate da Band
Álvaro Dias durante debate da Band — Foto: José Aldenir

Considerado um dos profissionais mais vitoriosos do marketing potiguar, Macedo participou de nove eleições municipais consecutivas vencidas por seus candidatos em Natal. Também atuou nas campanhas de Wilma de Faria para o Governo, de Rogério Marinho (PL) para o Senado e de Paulinho Freire (União Brasil) para a Prefeitura.

Quando um estrategista desse quilate começa a explicar por que seu candidato não correspondeu às expectativas, abre-se uma brecha na narrativa oficial. Por ela aparecem dificuldades maiores do que uma poltrona ou um cronômetro.

A primeira está no legado de Álvaro na Prefeitura. A transição apontou R$ 862,9 milhões em restos a pagar e 46 obras paralisadas ou inacabadas. O ex-prefeito contesta a interpretação dos números e afirma ter deixado recursos suficientes para cobrir as obrigações.

O desgaste também envolve o Hospital Municipal São Padre Pio, inaugurado em dezembro de 2024, nos últimos dias da gestão Álvaro. Mais de um ano e meio depois, a unidade ainda não havia recebido pacientes e dependia de serviços complementares e recursos para custeio. Álvaro sustenta que deixou a estrutura física pronta e atribui a demora à ampliação do projeto pela administração seguinte. O fato politicamente difícil de contornar é que o hospital foi inaugurado e permaneceu fechado.

Outra controvérsia é a engorda de Ponta Negra. A obra avançou antes da conclusão de toda a estrutura de drenagem, apesar de relatório da Defesa Civil Nacional recomendar que o aterro hidráulico fosse iniciado somente depois dessa etapa. Desde então, a nova faixa de areia registra alagamentos recorrentes após chuvas.

Em julho, a Prefeitura iniciou uma complementação da drenagem, orçada em R$ 21 milhões. A gestão municipal afirma que os chamados “espelhos d’água” são previstos em períodos de precipitações intensas. A necessidade de uma nova intervenção, contudo, reforça as críticas ao planejamento da obra conduzida na administração de Álvaro.

As pesquisas acrescentam outra preocupação. Na série Exatus, Álvaro passou de 24,91% em abril para 22,75% em maio, enquanto Allyson Bezerra (União Brasil) avançou de 37,29% para 41,01%. O ex-prefeito apareceu na liderança apenas na Grande Natal, enquanto Allyson venceu nas outras oito regiões.

Levantamentos que apresentaram Álvaro na frente foram suspensos, considerados irregulares ou submetidos a questionamentos na Justiça Eleitoral. As decisões não possuem todas a mesma natureza, mas diminuem a força política dos números que a campanha pretendia utilizar como demonstração de liderança.

Álvaro ainda aposta na identificação com a direita, mas o cenário nacional não oferece o mesmo impulso de eleições anteriores. Pesquisas presidenciais colocam Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à frente de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno, enquanto Cadu Xavier (PT) tenta converter a força de Lula no Rio Grande do Norte em crescimento estadual.

É nesse contexto que as justificativas de Macedo ganham significado. O marqueteiro tentou explicar o que aconteceu no estúdio, mas terminou abrindo uma janela para um quadro mais amplo: passivo administrativo, hospital inaugurado e fechado, problemas de drenagem em Ponta Negra, pesquisas favoráveis sob questionamento e ausência de uma onda nacional do PL.

Um debate não decide uma eleição. Mas, quando o próprio marqueteiro precisa explicar por que o candidato não foi bem, talvez as perspectivas da campanha não sejam tão favoráveis quanto ela pretende demonstrar.