O encerramento do prazo das convenções partidárias expôs um dado que deveria constranger a política brasileira. Pela primeira vez desde 2002, a eleição presidencial tende a não ter nenhuma mulher em uma chapa realmente competitiva. Entre as candidaturas com ao menos 1% de intenção de voto nas pesquisas, aparecem apenas duas mulheres, Samara Martins e sua vice, Raquel Bricio, ambas da Unidade Popular. O contraste é evidente. Num país em que 53% do eleitorado é feminino, a disputa pelo cargo mais importante da República volta a ser organizada quase exclusivamente por homens.
A gravidade do quadro não está em apontar este ou aquele partido como responsável isolado pelo problema. Tampouco se trata de reduzir a discussão a uma acusação individual contra dirigentes ou candidatos específicos. A exclusão feminina do topo da política brasileira é um fenômeno antigo, persistente e espalhado por praticamente todo o sistema partidário. O que não se pode aceitar é a naturalização dessa ausência. Uma democracia não pode considerar normal que metade da população desapareça justamente da eleição que define o comando do país.

O déficit de representação fica ainda mais evidente porque não faltaram, nas últimas décadas, tentativas legais de ampliar a participação feminina. Foram criadas cotas de candidaturas, regras para distribuição dos fundos públicos de campanha, alterações na propaganda eleitoral e punições contra candidaturas fictícias. Pode haver divergência legítima sobre a eficácia de cada uma dessas medidas. O resultado, porém, é incontornável. Mesmo com esse conjunto de incentivos e sanções, a barreira que impede mulheres de chegar ao centro da disputa pelo poder nacional continuou de pé.
Parte do problema está na estrutura dos próprios partidos. São eles que selecionam lideranças, constroem trajetórias, distribuem dinheiro, organizam palanques, oferecem tempo de exposição e decidem quais nomes receberão condições reais de competição. A política não começa no momento da convenção. Antes dela, há anos de formação de redes, ocupação de espaços, definição de prioridades e negociação interna. É nesse percurso que muitas mulheres são mantidas em posição secundária, mesmo quando possuem densidade eleitoral, experiência pública e reconhecimento social.
Os partidos também são responsáveis por definir quem se senta à mesa onde se escolhe uma candidatura presidencial. Essa mesa continua majoritariamente masculina. Quando mulheres aparecem, muitas vezes surgem como alternativas convenientes para compor a chapa, equilibrar a imagem pública ou suavizar resistências. Raramente são tratadas, desde o início, como opções naturais para liderar o projeto. Assim, a política brasileira aceita mulheres como complemento, mas reluta em reconhecê-las como centro da disputa pelo poder.
A eleição deste ano oferece exemplos eloquentes. No PL, Michelle Bolsonaro chegou a ser mencionada por aliados tanto como possível cabeça de chapa quanto como eventual vice. A senadora Tereza Cristina, do PP de Mato Grosso do Sul, também apareceu entre os nomes mais competitivos para integrar uma candidatura presidencial. Nenhuma das duas alternativas prosperou. Flávio Bolsonaro, do PL, acabou escolhendo um homem para vice. O episódio mostra que mesmo mulheres com capital político, visibilidade nacional ou presença consolidada dentro de seus campos encontram resistência quando o passo seguinte é ocupar o posto principal.
No PT, a situação revela outra face do mesmo problema. Lula volta a disputar a Presidência pela sétima vez e terá novamente Geraldo Alckmin, do PSB, ao seu lado. O partido, historicamente identificado com bandeiras de inclusão e representação, não apresentou publicamente uma discussão relevante sobre uma alternativa feminina para a chapa. A repetição de uma composição masculina no topo não pode ser tratada como mero detalhe. Ela confirma que, da direita à esquerda, a dificuldade de abrir espaço efetivo para mulheres nas chapas presidenciais permanece praticamente intacta.
O comportamento dos partidos diante das regras de incentivo à participação feminina ajuda a explicar por que o avanço é tão limitado. Quando essas normas começaram a produzir efeitos concretos sobre a divisão dos recursos, cresceu também o movimento para flexibilizá-las. PT, PL e outras legendas defenderam junto ao Tribunal Superior Eleitoral, em meados do ano, que candidaturas majoritárias fossem excluídas do cálculo das cotas destinadas a mulheres e negros. A iniciativa revela o limite do discurso partidário. A valorização da presença feminina costuma ser aceita enquanto não interfere de modo relevante na distribuição do dinheiro, do tempo e do poder.
A anistia aprovada pelo Congresso para legendas que descumpriram essas exigências no passado recente reforça essa contradição. O sistema político cria regras, descumpre regras e depois encontra meios de reduzir o custo do descumprimento. O resultado é previsível. As normas perdem força, as candidaturas femininas seguem subfinanciadas ou subordinadas, e os partidos preservam estruturas internas que favorecem os mesmos grupos de sempre.
O desaparecimento das mulheres da principal disputa eleitoral do país não é uma curiosidade estatística. É a demonstração de que a política brasileira ainda trata liderança feminina como exceção, não como expressão normal da democracia. Num eleitorado majoritariamente feminino, a ausência de mulheres competitivas na eleição presidencial revela distorção profunda entre sociedade e representação.
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, observou recentemente que só haverá plena igualdade quando ninguém estranhar um Supremo composto apenas por mulheres. A provocação também vale para a política. O problema brasileiro não é a falta de mulheres preparadas para governar. O problema é a resistência de um sistema partidário que continua estreitando o caminho delas até os espaços mais altos do poder.