Às portas do início oficial da campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega à Vila Euclides, em São Bernardo, depois de uma semana de articulações em Brasília que produziram dois resultados relevantes. O presidente da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba, declarou apoio público à sua reeleição, enquanto a conversa com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União do Amapá, transcorreu em ambiente menos tenso e menos truncado. São movimentos pouco visíveis ao eleitor, mas capazes de influenciar o rumo da disputa e a formação de uma futura base de governo.
O gesto de Motta tem peso próprio. Desde que assumiu a Câmara, em fevereiro do ano passado, sua relação com o Planalto alternou aproximações e atritos. Há fatores locais que ajudam a explicar sua decisão, mas eles não bastam. Um político que já orbitou o bolsonarismo escolheu apoiar Lula logo na largada da campanha. Isso revela uma aposta na possibilidade de reeleição do presidente e indica que parte do Centrão começa a enxergar o petista não apenas como candidato competitivo, mas como favorito capaz de reorganizar alianças antes mesmo da votação.

Essa leitura não parece limitada ao deputado paraibano. Ela alcança parcelas do Centrão e ajuda a explicar por que Flávio Bolsonaro não conseguiu montar uma aliança mais ampla. O senador terminou restrito ao PL e, como consequência, terá menos tempo de televisão que Lula. O fracasso em atrair partidos do centro não decorreu apenas de divergências programáticas ou de negociações mal conduzidas. Também reflete o cálculo de dirigentes que preferiram preservar autonomia nos estados e evitar uma aposta nacional arriscada.
O Planalto chegou a esse resultado sem transformar a movimentação em espetáculo. Lula e emissários próximos conversaram reservadamente com dirigentes de partidos que acabaram optando por não se comprometer formalmente com nenhum candidato à Presidência. Essas legendas irão às urnas sem candidatura presidencial conjunta, preservando liberdade para composições estaduais tanto com a esquerda quanto com a direita. A neutralidade, nesse caso, não significa ausência de cálculo. Ao contrário, permite que as cúpulas partidárias esperem o desenvolvimento da campanha e mantenham abertas as portas para quem demonstrar capacidade de vitória.
O movimento de Ciro Nogueira ilustra essa mudança. Ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e defensor público de que o PP deixasse o governo, ele alterou sua postura depois da eclosão de escândalos como Master e Refit. Passou a atuar para impedir que a federação integrada por seu partido aderisse a Flávio Bolsonaro e trocou recados com o Planalto, recebendo também respostas nesse movimento de aproximação. Não é uma conversão ideológica. É política feita com base em correlação de forças, perspectivas eleitorais e preservação de espaço.
Motta também foi além dos interesses da política paraibana. Trabalhou junto à cúpula do Republicanos para conduzir a legenda à neutralidade formal na disputa presidencial. O gesto reforça a percepção de que uma parcela do Centrão prefere não amarrar seu destino ao candidato do PL. Em vez de embarcar numa candidatura presidencial, esses dirigentes optam por preservar seus palanques locais e manter capacidade de negociação com o vencedor.
As conversas de Lula com o Centrão tiveram outros efeitos. Flávio ficou sem palanque em Pernambuco. Arthur Lira, do PP de Alagoas, ex-presidente da Câmara e aliado dos Bolsonaro, continua adiando uma declaração de apoio ao senador do PL. Nesta semana, chegou a se reunir com Flávio evitando a imprensa, comportamento que fala quase tanto quanto uma manifestação pública. Se estivesse decidido a aderir, seria natural transformar o encontro em demonstração de força. A cautela indica que Lira ainda mede custos e benefícios.
No caso de Lira, as circunstâncias locais seguem embaralhadas. Sua posição poderá depender das candidaturas ao Governo e ao Senado. Também não está claro se Lula teve participação na decisão do ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas, o JHC, de disputar o Senado, e não o Governo, como esperava o grupo de Lira. Ainda assim, o ex-presidente da Câmara hesita em apoiar o adversário de Lula porque sabe que, em Alagoas, o petista tende a prevalecer nas urnas. A política estadual empurra o cálculo nacional para uma zona de prudência.
Essas articulações não se destinam apenas a vencer a eleição. Também procuram preparar as bases da governabilidade depois de outubro. Motta e Alcolumbre trabalham para ser reconduzidos ao comando da Câmara e do Senado. A reaproximação dos dois com Lula é reveladora porque, segundo a avaliação de pessoas próximas a ambos, o presidente aparece como o nome com maior possibilidade de vitória em outubro.
O Centrão não virou lulista. Não abandonou sua lógica própria, muito menos passou a agir por afinidade ideológica. O que mudou foi a percepção de risco. Quando lideranças acostumadas a apostar no poder evitam Flávio, mantêm distância do bolsonarismo e se aproximam de Lula, elas estão emitindo um sinal político claro. A pergunta não é se o Centrão “lulou”, mas se decidiu que, por enquanto, é mais seguro caminhar perto de quem parece ter maiores chances de vencer.